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Opinião

Mortais

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A morte é incontornável. ?O ilustre, o rico, o pobre, o honesto, o incréu, o religioso, nada do que chegarem a possuir alterará sua condição: mortais. Vivos e mortos, a única coisa que os distingue é apenas a vaidade. A existência no início como no fim é sempre um caminho para a morte.? (Pe. Antônio Vieira 1608/97). Anualmente morrem um milhão de brasileiros e, destes, 800 mil tiveram a morte anunciada por alguma doença longa. A revista The Economist avaliou a qualidade de morte em 40 países e o Brasil foi o terceiro pior do mundo para se morrer. Ganhamos de Uganda e Índia. Em 2015, a pesquisa foi para 80 países e ficamos no 42° lugar (Ana Arantes, no livro A morte é um dia que vale a pena viver). Ainda distante duma morte amena. O Papa João Paulo II não aceitou alimentar-se por sonda, quando não pôde mais ingerir alimentos. E Pio XII defendia o uso de analgésicos potentes para combater dor aflitiva, ainda que diminuisse o tempo de vida. O Prof. Bernard Lown de Haward enumerou em ?a arte perdida de curar? cinco fatores que tornam esse equilíbrio difícil: 1. A tecnologia, que possibilita o prolongamento indefinido da vida; 2. A profissão médica, que declarou guerra à morte; 3. O hospital, que tem interesse em prolongar a batalha geralmente fútil, porque ganha por procedimentos ofertados. No último mês se consome quarenta por cento dos gastos do último ano de vida; 4. O paciente, ignorante dos seus direitos e condicionado a sofrer; 5. E o público, em esperar dos médicos somente a vitória. A medicina científica prolongou e melhorou a vida, ao tempo em que piorou a morte, conclui ele. A sociedade e os médicos demoraram a ver isso. E as escolas de Medicina também. Estamos começando o reparo, treinando nossos futuros médicos para aceitarem a morte como etapa natural de quem é vivo. Não se trata de antecipar a morte de ninguém, mas nas horas finais, uma mãe pode preferir morrer em casa ao chegar sua filha distante, do que isolada numa UTI. Lutar para que a morte nos encontre vivos. Isso se faz através dos ?cuidados paliativos?. O nome paliativo significa abrandar, mas em português soa mal, porque parece gambiarra. Trata-se de morrer em conforto: médico, espiritual, psicológico, sociofamiliar. As religiões e cultos insistem em negar o fim inexorável da vida. Dificulta a aceitação pela sociedade. Tema para teólogos, poetas e filósofos. Assim se perde a grandeza de estar vivo.

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