Opinião
Preconceito à brasileira
Duas verdades sobre o preconceito no Brasil mostram-se dignas de análise: brasileiro é preconceituoso e, paradoxalmente, gosta da boa fama de viver num país livre dessa chaga moral; quero dizer, usa-se o preconceito e não o assume. A hipocrisia da qual se vale o povo brasileiro está enraizado em sua cultura desde o século XVI. O Brasil sorri, por exemplo, quando lhe atribuem as marcas positivas da diversidade de gênero, da tolerância de raças ou do acolhimento social; na prática, o que se vê é justamente o contrário: desde o preconceito velado até o mais explícito, a sociedade é implacável com quem não se enquadra em determinados grupos para os quais ela mesma não se volta com bons olhos. O preconceito atinge a todos ? negros, pobres, nordestinos, mulheres, homossexuais... Ninguém escapa à segregação da própria gente. E que não se crie vã ilusão de que uma geração será suficiente para acabar com qualquer tipo de preconceito da sociedade. Albert Einstein (1879-1955) sabia disso e simplificou a dificuldade de se lutar contra a discriminação com as seguintes palavras: ?Época difícil é a nossa, em que é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo?. Sou educador e até mesmo na minha profissão (por incrível que pareça), entre meus colegas, há um nível alto de preconceito contra alguns grupos sociais. Não é raro eu testemunhar comentários do tipo: ?Não tenho nada contra negros, mas é uma raça difícil de aturar?. Vez ou outra, alguém me chega com essa: ?Pobre é lasca mesmo. Eu devia jogar um litro de querosene nele e acender um fósforo, só para ver o que acontece?. Em relação aos homossexuais, os comentários são sempre abomináveis: ?Quem não é homem nem mulher não é nada, muito menos é gente?; ?merecem morrer?; ?se eu pego dois barbados se beijando, desço a pancada mesmo, isso é uma falta de respeito com os bons costumes e com a tradição da família?. Yago Cândido Malafaia Teles, aluno do 3º ano do Ensino Médio do Colégio Nossa Senhora Aparecida, instituição localizada no bairro Vergel do Lago, faz uma reflexão importante a respeito do assunto: ?Quando penso na questão do preconceito no Brasil, imagino duas faces de uma mesma moeda, em que cada lado representa pontos diferentes. De um lado, existe uma ideia ?exterior? concebida de que o Brasil é um lugar acolhedor e pacífico; do outro lado, existe o ponto de vista do próprio brasileiro, que vivencia atos de racismo em sua volta. O Brasil é dito como um país com miscigenação exemplar, onde negros, brancos e índios vivem em harmonia e onde o discurso de sermos todos iguais se propaga; mas isso não se vê no dia a dia. Rotineiramente me deparo com comentários numa rede social que discriminam alguém ou vejo notícia na TV sobre uma pessoa que foi agredida apenas por sua cor ou sua opção sexual. Eu acredito que ninguém nasce com preconceito, mas o adquire com o tempo?. Respeitar o direito ou a natureza do próximo não pode ser uma questão teórica, a filosofia da respeitabilidade precisa ser ponto obrigatório numa sociedade em que o cidadão se autodeclara tolerante com o outro.