Opinião
Marta
Ainda não tive nem sei se terei o prazer de estreitar as mãos de Marta, essa admirável mulher e maior jogadora de futebol de todos os tempos, comparável apenas a Pelé, o imbatível. Marta, agora pela sexta vez, é a ganhadora do troféu ?melhor do mundo? e ultrapassou, em quantidade de premiações, até Messi e Cristiano Ronaldo, os maiores vencedores na modalidade masculina do prêmio. Em tempos bicudos, em que parece haver uma cruzada nacional pelo baixo astral, eis aí uma notícia que nos alegra, que nos faz sentir um pouco da felicidade que Marta deve estar sentindo e que nos identifica, enquanto povo, com essa representante legítima da miscigenação brasileira, de nossa ancestralidade indígena, africana e portuguesa. Marta, alagoana saída dos nossos sertões, temperada no sol do semiárido, acostumada com as flores, mas também com os espinhos da Caatinga, dos quais aprendeu a se livrar criando os seus dribles famosos, lava a nossa alma, põe para cima a nossa autoestima e dá exemplo de vida precioso. Mundialmente conhecida, festejada, acolhida, não muda o jeito afável, não perde a autenticidade, não descura do seu irretocável profissionalismo e ainda encontra tempo para manter-se ligada à família, ao querido Dois Riachos, às terras alagoanas, à cultura nordestina. Pessoa que irradia firmeza e determinação sem perder a serenidade, Marta é uma referência sólida para a nova mulher mundial, emancipada, consciente de seu papel, do protagonismo que pode e deve ter na sociedade globalizada que finalmente está enterrando, mesmo com a resistência tenaz do passado, os preconceitos, as normas e o tratamento opressivos que ainda fustigam o sexo feminino em muitas partes do planeta. E Marta faz isso sendo apenas Marta. Uma moça simples, que saiu de uma cidade pequena do Brasil profundo, que pratica um esporte de massas e não precisa de qualquer outro instrumental para provar que as mulheres, tanto quanto os homens, podem e devem liderar a sociedade em qualquer segmento da atividade humana. Dizer tudo isso me pareceu fundamental em momento em que a ascensão da identidade feminina parece incomodar a cultura obsoleta do machismo, que se nutre da ignorância e de uma depreciação reacionária do feminino, a ponto de fazer crescer no Brasil a estatística dos assassinatos covardes, dos estupros, do espancamento moral de mulheres, em espiral de intolerância e banalização que precisa ser combatida com energia, mas também com a força do exemplo que, talvez, mesmo sem perceber, Marta nos traz! Viva a mulher brasileira!