Opinião
Um cadáver desconhecido
Ainda no primeiro semestre do seu curso de medicina, o meu filho já anda às voltas com músculos e tendões nas aulas de anatomia, e para isso tem se valido da colaboração silenciosa de um cadáver desconhecido que lhe disponibiliza, assim como aos seus colegas, a estrutura corpórea que dá a todos eles a noção preliminar de como funciona o nosso organismo. Trata-se de um homem de meia idade, disse-me o Luís, pardo e corpulento, morto por causas naturais, sem nenhum sinal de ferimento ou violência. Despido na mesa fria, exposto à salutar curiosidade dos estudantes, com o seu peito aberto, os órgãos internos à mostra e a pele solta como se fosse um velho casaco de couro fubento, aquele indigente dá aos jovens acadêmicos o que talvez seja a sua primeira lição concreta da finitude da vida, da fragilidade da nossa humilde condição humana, da irracionalidade absoluta do nosso orgulho, da nossa avareza e da nossa presunção. Fico pensando por onde teria andado aquele semelhante meu, filho amado de Deus, até findar-se num tanque de formol. Quantas vezes, na sua infância longínqua, ele foi acarinhado no colo da mãe amorosa, desejosa do futuro promissor que terminou não se realizando? Que horizontes aqueles olhos agora cerrados não terão descortinado, trazendo-lhe sonhos e esperanças que ficaram à margem do caminho? O rosto emaciado, acinzentado pela conservação química, quantos beijos recebeu de mulheres que lhe acenaram com promessas vãs? Imagino dores curtidas na solidão, sem uma mão ajudosa nem um ombro amigo; choros ouvidos por ninguém, na escuridão da noite quase infinita; rogos inatendidos pela indiferença de tantos transeuntes apressados. Quantos sentimentos terão habitado naquele coração, e ficaram guardados para toda a eternidade no silêncio da mera intenção? Paisagens, cores, rostos, sabores, cheiros ? tudo o que passa à nossa frente nessa caminhada breve a que chamamos de existência, e que se extinguiu com ele, inapelavelmente. Passei a semana toda com a lembrança daquele pobre homem, de quem não sabemos sequer o nome. Certamente não teve uma vida fácil, provavelmente passou fome algumas vezes, talvez tenha enfrentado doenças sem nunca ter tomado um remédio. Deve ter tido medo do desconhecido e da morte (todos nós temos, em maior ou menor grau), sem ao menos uma palavra que lhe servisse de consolo. Foi-lhe negada até a dignidade de um sepultamento cristão, e ele partiu sem o choro de familiares ou de amigos, sem velas nem flores. Que os alunos tratem-no com respeito, que lhe sejam gratos e que orem pelo repouso eterno da sua alma; é tudo quanto pode ser feito agora.