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Opinião

Impressões sobre um velho teimoso

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No último dia 18 de setembro morreu, em Brasília, o médico Francisco Alberto Sales, presidente da Fundação Casa do Penedo, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e da Academia Alagoana de Letras. Para Alagoas, é mais uma daquelas perdas irreparáveis. Para a cidade de Penedo, ainda muito mais. Conheci o Sales por meio de dr. Ib Gatto e logo reconheci que sua surdez só havia melhorado a sua comunicação. Falava aos gritos. Exigia que se conversasse olhando para o seu rosto, só assim podia manter a conversa, lendo os movimentos labiais. Por mais sério que fosse o tema tratado ele sempre tinha, no bolso, uma história que fazia todos rirem. Talvez a melhor delas foi dizer ao abade do Convento de Penedo que os anjos de determinado altar não eram anjos e sim putos. A palavra vem do latim e desde a antiguidade clássica descreve a imagem de um menino nu. O abade não conteve o riso e ele fez como se não tivesse dito coisa alguma. Fui diversas vezes a Penedo, enquanto fazíamos nossos textos para o livro sobre convento, durante e após a restauração. Não sei quem ele não conhecia. Bastava alguém cumprimentá-lo na rua e ele ia perguntando pelo restante da família. Mais ainda, continuava, mesmo quando se despedia, a tratar de algum fato relevante sobre a pessoa. Era incansável em tudo o que fazia e não perdia detalhes nem se furtava de divagar sobre absurdos ou temas complexos, principalmente, quando queria provar alguma coisa chegava a fazer citações ou recitar versos de memória. Uma vez me impôs uma história sobre a presença muçulmana em Penedo, tentando provar sua tese com uma inscrição na porta da Matriz. Era um círculo com umas letras meio árabes que mandei fotografar para examinar. Sales queria me testar e aguardou a minha pesquisa até o momento da revelação: o arabesco que compunha o círculo no frontispício da igreja, nada mais era do que a inscrição ?Nossa Senhora do Rosário?. A última vez que nos vimos foi quando recebeu a comenda Mário de Andrade do Iphan ? Alagoas. Eu não pude ir a Penedo e ele passou na porta da Associação Comercial de Maceió para falar comigo. Tinha ficado quase uma semana esperando melhorar para poder voltar para Brasília, já estava muito mal. Talvez por isso eu não tenha contido as lágrimas ao abraçá-lo, sem saber que seria a última vez. Por isso, quando o Félix, seu cuidador, passou para me entregar o convite da inauguração do Chalé, a primeira coisa que perguntei foi se ele viria. Félix acreditava que sim. E eu acreditei que ele estava melhor. Mas ele não pôde vir. Era seu maior sonho... Sales era daqueles amigos que a gente tem, que não nos cobra nada e não exige nada em troca de sua amizade. Seu afeto era puro brinquedo, desenterrando vetustas histórias para nos fazer sorrir. Quantas vezes disputamos a janela da minha sala porque nós dois tínhamos problema de enxergar contra a luz. No final, ficávamos um frente ao outro sem vermos nossa cara. Então, ríamos da nossa condição. Posso imaginar para quem vivia o dia a dia com ele como será difícil continuar.

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