Opinião
A pior democracia
Reconheçamos: seria o desejável, mas improvável que um País submetido a tantas mazelas, de todos os tipos, e durante tanto tempo ? as quais só foram expostas em parte e recentemente com a Lava Jato ? pudesse ter uma campanha eleitoral baseada na razão e no bom senso. J. Wilmot, poeta inglês descreveu bem essa virtude peregrina: ?A razão, aquele fogo-fátuo da mente?. Uma boa explicação veio de William Waack: existiriam duas hipóteses para ser apreciadas para tentar entender o fenômeno pelo qual a atual eleição presidencial é liderada pelas duas correntes políticas mais extremadas do espectro político, o que divide a sociedade radicalmente, deixando pouco espaço para os adeptos da ala moderada, ?racional? ou ?equilibrada?. A primeira seria que este fosse um fenômeno efêmero, resultante das emoções elevadas ao paroxismo no processo eleitoral. A outra seria que esse é um fenômeno que tende a se consolidar entre um percentual elevado dos eleitores. Waack aposta na segunda hipótese e as justifica satisfatoriamente. Ele relembra os processos políticos pelos quais o País passou recentemente e que justificariam essa radicalização, e nomeia o que seria uma Guerra Cultural, em que ambos os lados exaltam suas bandeiras e depreciam a dos adversários. Os moderados, adeptos do centro (nada a ver com o ?Centrão?!), além de ficarem entre dois fogos, são estigmatizadas por ambos os lados, podendo mesmo, alguns, sucumbirem às pressões e optarem por um dos lados, sacrificando para tal os seus próprios princípios. Os moderados têm insuperável autorresistência para utilizar expedientes que condenam nos adversários, como fake news e distorções de fatos, como também adotar fundamentalismos, sejam eles quais forem. Aquilo que condenam nos adversários jamais aceitarão utilizar, mesmo que isso implique em perder uma eleição ou outra coisa também muito importante, são peixes fora d?água. Acredito nessa avaliação e conheço o desgaste que essa posição moderada assume neste momento. Mas acredito que estes moderados ? tanto os candidatos quanto os eleitores ? serão imprescindíveis no cenário de altíssima instabilidade que se descortina com a vitória de qualquer um dos lados extremistas, inclusive na desestabilização ainda maior do mercado. Eles estarão ao lado das instituições para acatar e defender o resultado das urnas, mesmo que ele lhes desagrade enormemente. Acreditam na democracia e estão alinhados com Rui Barbosa quando escreveu as suas Cartas da Inglaterra: ?A pior democracia é preferível à melhor das ditaduras?.