Opinião
Joia degradada
Parte da história de muitos brasileiros, o rio São Francisco, o Velho Chico, completa hoje 517 anos, pois foi em 4 de outubro de 1501 ? dia dedicado a São Francisco de Assis ? que o navegador italiano Américo Vespúcio entrou pela primeira vez nas águas desse gigante. Por isso, esse dia ficou marcado como data de seu descobrimento. O rio sempre foi responsável por matar a sede da população, gerar energia elétrica e impulsionar a agricultura irrigada nos estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Entretanto, o principal manancial do Nordeste agoniza há anos. O Velho Chico sofre tanto com a longa estiagem quanto pelas diversas ações humanas de degradação ? lançamento de esgoto, destruição das matas ciliares e outras agressões. A situação é de colapso. Antes, o rio botava água doce mais de cinco quilômetros mar afora. Agora, mais de 50 quilômetros rio adentro estão salgados. Em algumas localidades o abastecimento virou um sério problema. A vazão está reduzida a níveis mínimos. Em 2007, o governo federal iniciou a polêmica obra da transposição do rio São Francisco para combater os efeitos da seca. Seu objetivo é desviar algo entre 1% a 3% das águas do rio por meio de dutos e canais, para o abastecimento de rios menores e açudes que secam durante o período de estiagem no semiárido nordestino. Além do custo bilionário, a obra recebeu críticas de ambientalistas, preocupados com a degradação do Velho Chico. Questionam-se os impactos ambientais decorrentes da obra, como o desmatamento e os prejuízos à biodiversidade. Há, ainda, o receio de que a transposição afete a vazão do rio nas regiões mais próximas à nascente e que o desvio das águas do Velho Chico possa prejudicar a geração de energia hidrelétrica. O fato é que com o volume cada vez mais reduzido e sofrendo todo tipo de degradação, o São Francisco cobra o preço das sucessivas promessas de socorro não cumpridas. Estudos técnicos já mostraram que serão necessários mais de R$ 30 bilhões para revitalizá-lo. É uma ação que deve envolver a União, estados, municípios, organizações não governamentais e outras fontes de financiamentos. O valor é alto, mas o prejuízo que a degradação do rio causa à população e à economia do País é bem maior.