Opinião
A criança em mim
Escrevi certa vez em um de meus textos devermos conhecer os ciclos que fazem acontecer nossa existência, sabendo quando cada um está prestes a terminar para com cautela e serenidade, irmos nos desprendendo para iniciar novas etapas a serem vividas. Insistindo em perpetuar determinada situação, perdemos as novas experiências reservadas pela vida, e, consequentemente, as alegrias do porvir. Sempre trouxe em meu coração estas certezas. Dentre as muitas pessoas que marcaram minha caminhada com mensagens, considero duas inesquecíveis: Carlos Machado Pontes de Miranda, meu professor da disciplina ?concreto armado?, no curso de Engenharia Civil, quando, segurando forte meu braço e olhando em meus olhos, falou: ?Rostand... ria sempre, pois para ser sério, não precisa viver sisudo?. Anos antes, um ancestral querido, sentado em sua cadeira espreguiçadeira, com os braços cruzados sobre a cabeça, enquanto os dedos polegares giravam freneticamente um ao redor do outro dissera: ?Meu neto, cresça e apareça, mas sem permitir que a criança existente dentro de você jamais envelheça.? O tempo passou e hoje, já avô, com os cabelos esbranquiçados pelas lutas do mundo e as injustiças impostas aos mais carentes ou os desmandos praticados de forma quase generalizada por quem teria obrigação de gerar potencialidades para um crescimento sustentável da sociedade, em determinadas situações, mesmo com os olhos mareados de lágrimas, jamais perco a esperança no futuro, tentando manter no pensamento rastros do brilho característico da inocência infantil. Olhando para os cinco netinhos que possuo, vejo-os como meus melhores professores, sendo eu próprio de forma pura e acima de tudo livres dos resíduos negativos adquiridos ao longo da vida, em situações minadas pela falsidade, incoerência, egoísmo, vaidade ao extremo, orgulho em demasia, e tantos outros sentimentos negativos, absorvidos em busca da sobrevivência. Lembro minha infância, quando tudo parecia fácil, pois morando nas imediações do Parque Gonçalves Ledo, no início do bairro do Farol, adorava se chovia forte porque as barreiras do Jacintinho caíam, motivando risos e brincadeiras para mim e meus amiguinhos quando íamos até o local escorregar na lama, sentado em folhas de bananeira, sem nos darmos conta do sofrimento de quantos residiam na parte baixa do vale, tendo, inclusive, suas casas destruídas. Pena é que, ao crescermos, algumas fantasias virem passado, e tenhamos de entender serem as diversões de criança persistentes, embora estejamos vivendo a vida real. Este, certamente, o motivo de haver aprendido a nunca temer o futuro, mas, pelo contrário, ousar seguir em frente encarando os desafios de cada ciclo existencial, por acreditar em mim, nas pessoas boas a meu lado e continuar crendo serem os sonhos capazes de concretização se restarem armazenados nas prateleiras de nossos desejos. O importante em meus dias atuais é que mesmo trazendo no âmago a estranha malícia adquirida com o tempo, jamais deixo de valorizar a inocência da criança latente em meu ser.