Opinião
Guerra santa da pilantragem
O primeiro turno das eleições de 2018 trouxe o que as pesquisas eleitorais sugeriam: a passagem dos dois candidatos mais extremados para o segundo turno. Ficou estabelecida a influência das redes sociais no processo eleitoral e sem medo de errar, que as fake news desempenharam seu papel sujo de forma exemplar, principalmente no acirramento dos ânimos e do radicalismo. Nesse contexto emocional exacerbado, o bom senso e a razoabilidade perderam terreno para as paixões furiosas carregadas de ódio, preconceito e intolerância. O pior de tudo é que a compulsão pelas fake news como arma legítima para ganhar as eleições disseminou-se de forma acrítica não só pelos bolsões de analfabetismo, como pelos salões de gente instruída, nas salas dos pós-graduados e na cozinha da elite intelectual nacional, que parecem convencidas de que, para fazer sangrar o lado oposto, a mentira é uma aliada virtuosa. A opinião pública conflagrada é a razão objetiva dos dois lados para se beneficiarem desse deplorável método, enquanto é inevitável reconhecer que existe uma razão de natureza subjetiva a contaminar a sociedade ? entre nós, a honestidade intelectual está em baixa, pois o argumento geralmente usado é que para evitar o ?mal maior?, ou seja, o adversário vencer, qualquer coisa, por mais detestável que o seja, é válida. Embora a praga das fake news ameace se tornar uma endemia mundial, alguns países conseguiram debelá-la, como a França do liberal Emanuele Macron, o qual, com a ajuda da sociedade atenta, conseguiu frear o uso abusivo das fake news, o que não ocorreu nos EUA do populista Trump, cujos resultados econômicos alcançados até agora servem como modelo para aloprados nacionais, que chegam à insanidade de prescrever Trump e as suas soluções como sanativo para o desastroso Brasil atual. Roberto Campos derreteria de rir dessa loucura. A luta contra as fake news travada pelo Judiciário brasileiro pertence a toda a sociedade brasileira sã, é ela indispensável para manter um mínimo de civilidade e respeito pelo Estado de Direito Democrático, apoiado por 69% dos eleitores, certamente a melhor notícia dos últimos tempos. Repassar fake news nas redes sociais e o uso descarado da mentira em prol do ?bem maior? seja de que lado for e para qual intento for, mesmo que seja para obter o tal ?bem maior?, que é ganhar as eleições, é somente o uso da hipocrisia travestida de guerra santa. Millôr Fernandes, conhecedor profundo das malandragens nacionais, escreveu: ?Se você agir sempre com dignidade, pode não mudar o mundo, mas uma coisa é certa: haverá na terra um canalha a menos?. A sociedade brasileira saudável não pode sucumbir a essa pilantragem vergonhosa.