Opinião
Descartar a política ambiental?
É entristecedor verificar que as políticas públicas de meio ambiente e recursos hídricos só vieram efetivamente ao palco dos debates eleitorais através de uma proposta que prevê a extinção do Ministério do Meio Ambiente e a transferência daquilo que sobrar para uma outra instância de governo, em arranjo que ainda não está nem ficará bem claro, tudo dependendo do resultado final das eleições. Essa proposta, que agora ganhará maior visibilidade, visto que seu padrinho logrou uma vaga no segundo turno das eleições presidenciais, complementa-se com outras ideias preocupantes, como, por exemplo, a limitação das ações e de prerrogativas de órgãos federais importantes, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). As justificativas para desejo tão drástico de intervenção na área ambiental assentam-se numa tradicional ladainha fantasiosa sobre suposta incompatibilidade entre desenvolvimento e proteção ambiental, somada a uma suspeita alegação referente à burocratização excessiva dos trâmites relacionados ao licenciamento de obras e empreendimentos pelos órgãos de meio ambiente. Se já é uma coisa bizarra contrapor políticas ambientais a desenvolvimento, como se entraves fossem ao progresso do País, mais chocante ainda é perceber que, em pleno século 21, o século do aquecimento global, ainda temos no Brasil lideranças políticas que ignoram ou não são capazes de entender minimamente os primados da sustentabilidade como premissa indispensável para qualquer projeto estratégico de Nação e de uma economia moderna. E tal circunstância alienante torna-se mais grave ainda quando essas lideranças e suas ideias toscas ganham a adesão de parcela significativa de agentes econômicos que se recusam a admitir os limites do crescimento, a imperiosidade do uso racional dos recursos naturais, o papel da ciência na solução dos complexos desafios nacionais e as regras democraticamente estabelecidas para que o crescimento da economia não se converta em monumental degradação do território e seus biomas, comprometendo irreversivelmente as condições adequadas de saúde e bem-estar da população e das futuras gerações de brasileiros e brasileiras.