Opinião
Diário de um professor
Primeira aula do dia, o relógio marca 7 horas. Antes de eu entrar na sala de aula, alguém ? ao me ver no corredor ? faz cara de fome e diz: ?Jesus... lá vem ele?. Ouço calado. Chego à sala, faço chamada; quando começo a explicar ?período composto por subordinação?, dois jovens abaixam a cabeça. Interrompo a aula, tento convencê-los da importância do assunto e exijo atenção. Eles (a contragosto) me obedecem. Recomeço o assunto. De onde estou, percebo a ansiedade vinda de três alunos por causa dos efeitos colaterais de medicação controlada. Tento mantê-los concentrados na matéria, porque eles vão precisar aprendê-la para um simulado próximo. Daqui a pouco, chega-me uma aluna e me fala baixinho: ?Professor, posso ir ao banheiro? Estou morrendo de dor?. Permito inclinando a cabeça. Olho para o lado esquerdo, alguém manuseia o celular com razoável discrição. O fato de ele não gostar de Língua Portuguesa não justifica o descaso. Sem que a turma perceba, me viro para o indivíduo e o fuzilo com o olhar. Ele entende o recado e guarda o smartphone. Meu malabarismo profissional continua. Ao passar atividade de fixação do assunto, uma aluna perto de mim se desmancha em lágrimas. Preocupado com a moça, eu a chamo para saber o que houve. Ela diz que está triste porque o pai não a compreende, não lhe dá valor. Passo-lhe meu conselho rápido. Sigo resistente. Não posso parar. Em certo momento da aula, começo a passar mal. Suo frio. Tento ser forte e disfarço o mal-estar. Um aluno mais atento me olha e comenta: ?Professor, você está pálido?. Fico entre parar a aula por alguns minutos (a fim de me recuperar) ou explicar aos meninos ?oração subordinada substantiva objetiva direta desenvolvida?. Escolho ? com dignidade ? a segunda opção. Perto de a aula terminar, depois dessa verdadeira batalha, quase fraquejo. Um aluno, do tipo que só vai à escola a passeio, é inominável: ?Professor, para que eu preciso saber tanta regra de gramática, se o importante mesmo é a comunicação?? Penso em lhe dar uma resposta à altura. Prefiro o silêncio. Por um instante ? por causa do cansaço ? acho que ele pode estar certo. Talvez ele tenha razão. Começo a duvidar da importância do meu ofício. Olho minha gramática sobre o birô. É o livro mais importante da minha profissão, o mesmo que muitos acham chato, ultrapassado e desnecessário. O desânimo vai se apoderando dos meus pensamentos. Faço uma autorreflexão: ?Meus métodos de ensino são irrelevantes? Será que a sociedade não precisa mais de professores? Será que estou morto para a profissão?? Tenho dúvidas. Toca o fim da aula. Antes de sair, a melhor estudante da sala se aproxima de mim e diz: ?Obrigada. Até amanhã, ?mestre?. Não se esqueça de que precisamos do senhor?. Ela pega minha gramática sobre a escrivaninha e me entrega aberta na primeira página, onde se encontra um belo conselho do genial Rubem Alves: ?Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais?. Sigo revigorado.