Opinião
Outra conta que não fecha
O Brasil tem muitas contas pendentes. Uma parte delas, sobretudo o preocupante nível do endividamento interno, mereceu pelo menos algumas menções telegráficas no premeditadamente raquítico debate eleitoral. Outras contas salgadas estavam e, a julgar pelo andor da carruagem, continuarão no anonimato. Refiro-me, por exemplo, às faturas que a natureza vem cobrando da União e dos estados e municípios à raiz dos crescentes desastres causados por secas, enchentes, inundações, tempestades e assemelhados. Dados divulgados pela Confederação Nacional dos Municípios indicam que de 2012 ao primeiro semestre de 2017 os desastres naturais causaram ao Brasil prejuízos que montam a 244,9 bilhões de reais como consequência de intempéries de todo tipo, afetando 53,6 milhões de pessoas ou cerca de 25% da população. Nos últimos 16 anos foram registrados algo em torno de 32.121 desastres naturais no Brasil. Só para minorar os efeitos destrutivos de secas foram editados 22.714 decretos de situação de emergência ou calamidade. Os registros referentes a chuvas chegaram a 9.030 casos. Outros tipos de ocorrências, 377. Diante de números tão insólitos, chega a soar como dissonância aberrante propostas políticas, saídas do forno do radicalismo, que pregam a incorporação do Ministério do Meio Ambiente pela área da Agricultura e o desmonte daquilo que foi possível construir em matéria de política ambiental brasileira. Para ilustrar o quão inconsequentes são essas ideias tecnicamente insustentáveis e excessivamente contaminadas por parâmetros ideológicos que pulam a cerca da política e do mercado para invadir o terreno da ciência e da economia sustentável, basta destacar que no período de tempo que está sendo analisado foram investidos pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa do Ministério da Integração 5 bilhões de reais em ações emergenciais de enfrentamento de desastres e somente míseros 503 milhões em ações preventivas, de planejamento. No século do aquecimento global e dos extremos climáticos, considerar que planejamento e política de meio ambiente são estorvos para a economia e o desenvolvimento é como atirar no próprio pé. Sem preservar os biomas essenciais para a regularidade das chuvas e produção de água, sem ocupar e usar o território de forma não degradante, sem organizar os aglomerados urbanos de maneira ordenada e sem respeitar a legislação e a estrutura administrativa da política ambiental e seu valioso acúmulo, não iremos a lugar nenhum no tempo futuro. Ficaremos aqui mesmo colecionando desertos, enormes levas de migrantes ambientais e cidades ainda mais violentas e irrespiráveis.