Opinião
A exposição da moralidade como desconstrução cultural
Todas as épocas tiveram seus conceitos de moralidade e a sociedade, mesmo quando não aceitava o rigor, respeitava as aparências. O que chancela a frase de Oscar Wilde: ?A moralidade moderna consiste em aceitar o modelo da própria época?. Lembro que, até por volta de 1963, o anúncio de absorvente me matava de curiosidade para saber o significado de ?naqueles dias?. O preservativo só veio a ser vulgarizado depois que o Chacrinha inventou a marchinha: ?Bota a camisinha, bota meu amor, hoje está chovendo não vai fazer calor? (1965). Até então, era chamado de ?camisa de vênus?, que vulgarmente se dizia ?camisa de vento?. Durante muito tempo, o cultivo da vulgaridade e da malícia só era permitido entre os homens. Os filmes pornográficos eram exibidos em sessões exclusivamente masculinas, salas fechadas aos adultos de mais de 18 anos. Enquanto isso, o recato feminino era observado na serenidade dos modos e na fluência de uma linguagem sem vulgaridades. Isso quer dizer não era aceitável uma mulher dizer um palavrão. Não vamos negar que a hipocrisia sempre se afunilou em conceitos criados para o modelo de sociedade de cada época. Entre tantas frases canalhas de Nelson Rodrigues, uma não tenho certeza de sua autoria ou se de Juca Chaves: ?A mulher ideal deve ser uma dama na sociedade e uma prostituta na cama?. O mundo atual perdeu essa hipocrisia sobre moralidade. Cada um, ao seu modo, expõe sua nudez como lhe apraz. Encerramos, assim, todo um período de construção social, de uma cultura moral com a exposição de nossa própria intimidade. Não é incomum não se saber quem saiu com quem e o que fez. É o desejo da publicidade como forma de liberdade e aprovação da sociedade. As relações entre o mesmo sexo, que se restringiam a encontros furtivos entre um parceiro ativo (que não se considerava gay) e outro passivo, sem direito a beijo (ver o filme O Beijo da Mulher Aranha, de 1985), hoje, se tornaram afetuosas entre os parceiros, públicas, com direito a andar de mãos dadas, beijo e casamento oficial, assim como os benefícios legais de cada cônjuge. E, finalmente, as redes sociais como mecanismos de aprovação ou desaprovação de costumes da sociedade remanescente. Essa prática vem criando uma sociedade de exceção, conservadora, usada muitas vezes política ou religiosamente, que demoniza ou apocalipsia essa realidade vivenciada como fins dos tempos. As redes sociais polarizam a situação em dois modelos: livre (likes) e o conservador (no likes). Ou você curte ou não curte. Tudo, de forma simplista demais para a dimensão do abismo social que o mundo contemporâneo vem criando. Seguindo um viés construtivo desse panorama, a arte se entreabre a novos experimentos, de indomável compreensão pela sociedade, num importante registro para a história deste século.