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Opinião

Tiro no pé

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A retórica inconsequente que frequentemente apresenta como excludentes as políticas de gestão do meio ambiente e aquelas destinadas ao incremento da economia torna-se sempre mais agressiva e até irracional quando a cena política mergulha em contextos de intensa e, via de regra, estúpida polarização. Embora assentada em base conceitual tosca e contraditória, ela se presta, porém, a uma fácil manipulação midiática que logo se transmuta em promessas eleitorais as quais, se colocadas em prática, terão alto poder erosivo e comprometedor para os objetivos mais estratégicos do desenvolvimento nacional. Desde meados do século passado o mundo da ciência e as principais lideranças mundiais já começaram a perceber que existem limites globais para o crescimento econômico, razão pela qual começou-se a trabalhar com o conceito de sustentabilidade para que esse crescimento possa assumir, de fato, sua plena identificação com a noção de desenvolvimento. E aqui, é claro, as políticas de meio ambiente e dos recursos hídricos passaram a ser implantadas como o conduto principal para a garantia dessa evolução. Portanto, contrapor a gestão ambiental ao progresso é postura que hoje já soa como palavrão internacionalmente, visto que, ao invés de atrapalhar a economia e a organização social, as políticas ambientais já são cada vez mais entendidas e adotadas como condição inseparável de um crescimento econômico duradouro, indutor da modernidade e do avanço tecnológico, garantidor dos interesses das futuras gerações e fator de primeira linha para a estabilidade e bem-estar das nações tomadas na individualidade de sua formação histórica e de sua geografia. Qualquer país que negligencie hoje a gestão responsável dos seus recursos naturais para atender cegamente aos apetites do mercado global sem atentar para o seu próprio projeto nacional e que produza e exporte sem agregar valor e tecnologia à sua produção e sem atentar para a necessária articulação do crescimento da economia com as demais esferas do funcionamento da sociedade, amargará sérios dilemas no novo mundo dos extremos climáticos e da interdependência das economias. Esquartejar o Ministério do Meio Ambiente e suas políticas públicas e subordiná-las à lógica do Ministério da Agricultura é, sem dúvida, um tremendo desserviço ao Brasil, a começar pelas próprias atividades agrícolas que são as maiores consumidoras das nossas águas e as mais dependentes das florestas e biomas, não somente para garantia de um regime minimamente regular de chuvas, como da biodiversidade que assegura algumas das condições básicas de sua produtividade.

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