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Opinião

A arte como um observatório da sociedade

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Entre tantos conceitos que os tempos vêm dando à arte, acrescentaria, sem o menor receio de errar, que a arte também é o observatório da sociedade. Não só por que através da arte conhecemos diversos períodos da história, como pelo sutil recorte dos costumes e vivências da sociedade em cada época. E não é apenas uma questão panorâmica, estética ou geográfica do passado que fica registrado ao tempo presente. É a percepção do artista, mais que qualquer outra pessoa, dos fatos sociais que revelam o irrevelável ou a verdade invertida. Justificável, o tratamento escatológico à arte produzida no mundo contemporâneo, pela sociedade, quando falta a percepção de que exposições como Queer Museus, performances abjetas e chocantes, nada mais são que um retrato da própria sociedade hodierna. Não se espante o leitor com essa afirmação, se não tiver feito um estudo do choque cultural pela qual tem passado a sociedade entre os anos de 1950 até 2018. Posso garantir que até o ano 2000 o mundo registrou muito mais erotismo, protesto com nudez, sevícia, bestialidades, pedofilia, terror, discriminação e heresia do que no conjunto de todas as exposições de arte até 2018. O início do século 21 é outro choque porque a licenciosidade deu lugar à permissividade e à publicidade desse panorama. A arte somente tem cumprido seu papel de revelar o irrevelável, de dizer o que não deveria ser dito e de mostrar o que deveria ficar escondido. Porque é assim que a sociedade hipócrita faz. Só que o tempo da hipocrisia morreu nos anos de 1960, no período da Contra Cultura, quando a geração atual viveu a nudez e a liberdade de Woodstock, experimentou marijuana, LSD, foi hippie, fez topless, viu Fernando Gabeira na praia de tanga de crochê, comprou a Playboy para ver Roberta Close, assistiu a Globeleza, os nudes de Joãozinho Trinta com tapa sexo, ficou até tarde da noite para tentar assistir o primeiro beijo gay e tantas outras coisas mais, agora quer dar uma de moralista porque chegou aos 70 anos. Isto tudo aconteceu entre 1950 a 2000. Tenha dó. De lá para cá não foi a arte que desembestou, foi a sociedade. E a arte apenas observa e revela um espelho da humanidade desse milênio. Resumindo, não é a arte que é imoral, é a sociedade que não conhece seus limites. Tenho como exemplo, em minha casa, um quadro que pintei, por volta de 1980. Intitulei como Sagrada Família, até porque toda família é, ao meu entender, sagrada. O quadro é um homem, uma mulher e uma criança, todos deitados numa cama, com almofadas, nus. Quantas gerações da minha família já viram essa obra? As minhas filhas o veem, desde pequenas, e agora os meus netos. Nunca houve sequer um comentário. A nudez nunca chamou a atenção de ninguém porque é o conjunto que representa, com sua sacralidade própria de qualquer família.

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