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domingo, 31/08/2025 | Ano | Nº 6044
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Opinião

Quando um amigo se vai

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Antigamente eu ia ao cemitério de Murici com minha mãe e passava em meio aos túmulos dos avós dos meus companheiros de meninice. Correram os anos e comecei a ver nas sepulturas os nomes dos pais deles, pessoas com as quais eu tinha convivido e que já faziam parte das minhas recordações. Cheguei à maturidade, e tanto na minha terra quanto no Parque das Flores e nos demais campos santos de Maceió eu agora tenho depositado, cada vez com mais frequência, os meus próprios amigos, aqueles que me acompanharam na infância, na adolescência e na juventude. Sempre que saio dessas cerimônias fúnebres carrego comigo um pesar profundo, uma saudade imensa de mim mesmo, uma falta danada do que, sendo meu, ficou encerrado naquele minúsculo espaço de terra ou de cimento. E canto baixinho com Renato Teixeira: ?A dor da saudade, quem é que não tem? Olhando o passado, quem é que não sente saudade de alguém?? Estou farto de dar tantos adeuses a quem eu queria ter sempre por perto, de substituir a gargalhada solta pelo soluço contido, de beijar a testa fria daqueles que, ainda ontem, eu osculava nas faces rubras pelo calor da fraternidade. Estou cansado de ver para sempre emudecidos os que me diziam palavras de ânimo e de empolgação, os que cantarolavam comigo serestas e canções de amor, os que declamavam ao meu lado poemas de paixão e de sonho enquanto degustávamos taças de um bom vinho ou doses da mais pura cachaça. Custa-me muito não ver mais o brilho dos seus olhos, as expressões que faziam quando eu lhes dizia algo cômico, o riso que prendiam nas situações inusitadas que juntos vivenciávamos. Um amigo jamais deveria ser encarcerado num caixão, a uma pessoa amada nunca poderia ser permitido sair de perto de nós sem pronunciar palavra alguma, e sem ouvir o tanto que ainda tínhamos para lhe dizer. A amizade não combina com silêncios prolongados nem com despedidas definitivas, ela que é tecida principalmente com os fios amáveis da convivência e da partilha. A solidão de um morto querido é, em certa medida, o reflexo da nossa própria solidão. Memórias, lembranças, vivências ? tudo compõe o cenário de uma caminhada irremediavelmente interrompida, a sua imagem que escapa ao nosso raio de visão, o timbre da sua voz que se esvai na poeira do tempo. Muito de mim é sepultado com os meus amigos que vou deixando nos cemitérios, junto aos seus corpos, que tantas vezes foram abraçados pelos meus braços. Nunca volto inteiro ou o mesmo para casa; como nos versos de Sidney Wanderley, sempre ?em mim algo há que falta?. E isso dói tanto...

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