Opinião
O futuro do pretérito
Os caminhos da arte, no mundo contemporâneo, revelam um limbo criativo vivido inconscientemente. Porque no fundo ninguém sequer acredita nesse paradoxo. Todo mundo acha que está construindo algo novo, quando realmente está relendo o tempo passado, tentando reformular uma nova sentença. Na recente história da arte, existem dois caminhos paralelos e que nem por um momento se cruzam: um, daqueles que se mantêm fiéis a sua própria linha de criação, evoluindo, porém, dentro de um viés de aperfeiçoamento e continuidade como fundamento da obra que iniciou. E outro, para os que permanecem buscando a arte como uma forma de expressão inusitada e competitiva, em meio a um universo de iguais com as mesmas expectativas. No segundo, ainda se acrescenta o totem humano que o artista representa, nessas orgias chamadas salões e bienais, onde muito se vê e pouco se leva. Dois outros polos dividem essa linha de produção: o primeiro cria mercado, impulsiona a economia, propõe investimentos e é autossuficiente. O segundo precisa de financiamento e mecenato, sua obra nem sempre é vendida ou quando a mostra acaba a obra conceitual é destruída. Será que não estamos experimentando um revivalismo criativo, de um passado recentíssimo que não se esvai da memória? Beira o pós-modernismo quando foi moda recriar os temas notabilizados nos interiores das obras palladianas do Veneto, produzidas por Giovanni Battista Zelotti, que fizeram da Vila Foscari a Vila Malcontenta. O pós-modernismo ainda explorava um delineamento novo das formas originais, a fantasia, a caricatura ou a crítica ao academicismo. O que vemos hoje é a experimentação de velhas fórmulas, notadamente espalhafatosas com o propósito de promover uma explosão de sentimentos. O erotismo está em alta. Não se trata mais da exploração estética do corpo humano pela arte, mas da violação moral do corpo como arte. E, numa sociedade de exceção em relação à cultura, onde religião e política se entrelaçam, o resultado tem sido caótico. Daí a banalização do corpo como instrumento de protesto e choque cultural. Sair desse pântano lodoso e degredado é tarefa desta geração de artistas, que se tem mantido afastado desta infeliz investida para o futuro da arte contemporânea. Não é buscando o tempo pretérito que se chega ao futuro, a não ser na gramática.