Opinião
Amor, desprezo e perigo
Não me recordo de outra época em que a cidade de Maceió tivesse uma quantidade tão espantosa de moradores de rua como ocorre agora. Não se sabe ao certo quantos, não temos conhecimento de dados estatísticos divulgados pelos órgãos de assistência social. Especula-se que podem ser mil esses excluídos. Mais grave ainda é a violência que os atinge repetidas vezes. Ano passado, o número de mortes com requintes de selvageria chegou a quarenta infelizes. Este ano, mais de uma dezena já foi eliminada, segundo informações da mídia. É estarrecedor! Pior quando se sabe que o extermínio é protegido pela impunidade. Em geral, os algozes não são revelados, praticam os crimes pelas madrugadas com armas de todos os tipos. Inclusive com pedras jogadas sobre o crânio quando o desafeto dorme. Na maioria dos casos, matam-se entre si graças ao velho e conhecido problema da droga e do álcool. No meu trajeto de caminhada no alvorecer de todos os dias, invariavelmente me defronto com esses irmãos jogados sob lençóis imundos e esburacados, alguns ainda sob o efeito do delírio do crack e cola consumidos até poucas horas antes. Uma tragédia quando olhamos que menores se afundam nesse lodo. Isso quando não buscam nas lixeiras apelando pela sorte de achar restos de comida estragada para saciar a fome que consome o estômago vazio. É no despertar também que costumam fazer a higiene dos fiéis companheiros, os vira-latas, catando-lhes as pulgas e carrapatos. Os cães são a nova paixão desses humanos excluídos. Por amor aos bichinhos, por prevenção para se protegerem das surpresas de um ataque assassino ou simplesmente pela carência de companhia, a realidade é que cada vez mais se cercam de caninos. Na orla urbana de Maceió, transeuntes e motoristas dividem os espaços com animais de estimação dos moradores de rua e os inevitáveis visitantes que se enturmam com os demais e disputam cadelas no ardor do cio. São muitos; assustam! O melhor amigo do homem criado em condições impróprias nas calçadas e praças por quem não têm recursos mínimos para cuidar do alimento adequado, vacinação periódica e higiene é muito perigoso. O grande número de cães espalhados pelas ruas ? a ausência de ações protetoras dos órgãos municipais é um risco de criar um problema sério de saúde pública ? é preocupante. Uma ameaça para crianças, adultos e idosos. Não há dados recentes de pesquisa nacional sobre a população em situação de rua quantificando e qualificando os fatores que levam pessoas a viver assim, em completo abandono. A última, que já tem alguns anos, expõe os principais motivos, como: alcoolismo e uso de drogas (35,5%), perda de emprego (29,8%) e conflitos familiares (29,1%). Existem também os que escolhem viver nas ruas simplesmente porque querem, gostam, sentem-se bem com esse isolamento do contato com a família e amigos. Urge um olhar mais pragmático do município e da sociedade envolvendo suas variadas organizações em busca de uma saída que minimize um desarranjo social cuja tendência é ganhar proporções insustentáveis.