Opinião
Comparando ciência com política
Em minha infância, durante as aulas de Ciências ministradas pelo Irmão Colares, aprendi ser a composição do ar integrada de setenta e oito por cento de nitrogênio, vinte e um por cento de oxigênio e o restante de outros gases em menor intensidade. Sem maiores explicações, entendi os seres humanos saudáveis carecerem dessa mistura extremamente balanceada, pois a mínima desconformidade entre os agentes mencionados ocasionaria acidentes, gerando sequelas de graves consequências. O nitrogênio, por exemplo, se prevalecer ante os demais, deixa rapidamente a fase gasosa, desestabilizando a inalação do ser humano e gerando perda de consciência com gravidade passível de levar à morte. Nas últimas eleições no Brasil, busquei encontrar nomes com os quais me identificasse, ou melhor, um candidato para chamar de meu. Infelizmente, em todos os níveis, por muito tempo no primeiro turno, minha certeza mais forte foi a indecisão. Em minha concepção, a política atual, com algumas exceções, é praticada por pessoas despreparadas imaginando que, para exercê-la, o homem tem apenas de saber gerar paixões, não como as vivenciadas na última Copa de futebol do mundo, quando a quase totalidade dos brasileiros vestiu verde e amarelo, mas aquela característica do arrebatamento egoísta que certifica os que sabem pensar, que a prática de objetivos nobres e decentes não devem prevalecer. Então, mesmo consciente de minha dúvida e dilema, ao conhecer os postulantes aos cargos eletivos, causou-me espécie estar convencido de como o nosso Brasil, em todos os níveis, cultiva a ciência de legislar, faltando, à quase totalidade dos pleiteantes, aptidão, engenho, bom senso e moralidade para agir como líderes de um povo. Minha maior preocupação repousava na dúvida de como o eleitor, gente com todas as qualificações e miscigenações, se assemelhava ao ar que respiramos. A grande maioria se compara ao nitrogênio: se descuidado, sufoca e mata, porque, elegendo quem oferece maiores facilidades mentindo sem escrúpulos, quase sempre pousando de herói, sem apresentar sua folha corrida, impressa pela Justiça, são um verdadeiro engodo. A minoria dos eleitores conscientes, analisando os candidatos, seus comportamentos e as companhias que os cercavam, não passava da mistura do oxigênio ou outros gases, menos conhecidos. Isoladamente, o oxigênio nutre a humanidade, da mesma forma que os eleitores conscientes não necessitam de favores pessoais dos candidatos de plantão, embora sejam incapazes de eleger alguém, majoritariamente falando. Essa é a razão de imaginar continuarmos reféns do nitrogênio que, de uma hora para outra, asfixia e faz padecer. No caminho de minha indecisão, persisti em deixar os ventos me levarem, por mais algum tempo, até escolher em quem votaria, para não colocar na arena um ser insaciável dos gozos, da vaidade e do dinheiro, em detrimento de alguém capaz de realmente trabalhar pelo futuro do Brasil. Acho que acertei.