Opinião
A Universidade e os radicalismos
O ambiente na Câmara Federal e nas Universidades é semelhante quando se trata de avaliar processos como o Projeto Escola sem Partido --- é selvagem. Parece que Diderot, ( filósofo francês, 1713-1784) ao escrever : ? Meus pensamentos são as minhas meretrizes?aí estava se inspirando. A hostilidade extremada entre os que defendem e os que repudiam o projeto alcançou níveis aterrorizantes. Desde que foi criada no século XII em Bolonha , a Universidade espelha o ambiente social, econômico, político e cultural em que está situada. Aqui, o clima continua radicalizado apesar do segundo turno das eleições ter terminado há mais de duas semanas. A Polarização ideológica e partidária continua crescendo de modo preocupante.Ameaças de agressão física e afrontas verbais a estudantes e professores continuam em elevação. Circulam listas com nomes de professores acusados de ser fascistas ou comunistas e de expressar ?idéias preconceituosas?. No Centro de Filosofia e Ciências humanas da Universidade Federal de Pernambuco , um docente não conseguiu entrar em sala de aula e teve de ser escoltado até em casa pela guarda universitária. Em universidades do sudeste, estudantes têm fotografado a lousa em aulas das quais discordam da orientação dos professores e divulgado o conteúdo nas redes sociais. Na USP a reitoria precisou acionar a polícia para impedir confrontos em algumas faculdades logo após o segundo turno. Depois do pleito, o acirramento político foi estimulado pelas discussões sobre a votação do projeto conhecido como Escola sem Partido, que proíbe o uso de termos gênero ou orientação sexual nas atividades acadêmicas e veda aos professores a manifestação de suas preferências ideológicas, religiosas e morais,e tem sofrido críticas de diretores de faculdades e reitores de universidades públicas. Segundo eles, a sala de aula sempre foi, por princípio, um espaço para divergências doutrinárias e troca de idéias a partir de perspectivas teóricas. Universidades dignas dos nomes são as que toleram o dissenso e a pluralidade de visões do mundo --- condições necessárias , ainda que não suficientes, para a reflexão e alargamento das fronteiras do conhecimento. ? Não é possível consolidar as bases de um ambiente acadêmico sem a garantia do livre debate, que assegure a todos o direito de assumir e externar livremente suas convicções?, afirma o reitor da Unicamp, Marcelo Knobel. ?Escola sem Partido não entra na USP?, diz o reitor Vahan Agopyan: ? É preciso entender que não existe bloco hegemônico de esquerda ou de direita na Universidade. Isso é estigma. Dependendo da área há uma tendência, e ela muda conforme o contexto histórico?. A Universidade deve ser um espaço de reflexão e debate,todavia, à direita e à esquerda, sempre há extremistas que, invariavelmente,exorbitam ao acusar de fascista ou de comunista aqueles com os quais não concordam. Querer doutrinar e não dar condições de suficiência de liberdade de pensamento para o estudante é incompatível com os propósitos de uma Universidade livre, aberta e democrática.