Opinião
Os canteiros em flor

O mundo está sempre pronto para nos ofertar algo de bom, em meio às atribuições e aos desafios que consomem as horas do nosso dia. Agora mesmo, no trânsito sempre caótico da Fernandes Lima, um belo ipê amarelo chamou a atenção do meu olhar e aliviou-me a chateação causada pelo engarrafamento que parecia não ter fim. Na avenida que é o verdadeiro purgatório dos que habitam na parte alta de Maceió, as flores da imponente árvore como que saltaram do canteiro central e invadiram as minhas retinas, massageando o meu coração com um espetáculo que somente a natureza é capaz de nos oferecer. Renovado pela primavera, o velho ipê renovou também a mim, eu que estava um tanto quanto ressequido por intempéries invisíveis a olho nu. Segui assim estrada adiante, agora mais atento à beleza que se esconde onde nem sempre conseguimos enxergar. Vi outros espécimes floridos, tingindo de cores a paisagem maltratada pela fumaça dos automóveis. Encantei-me com um fio elétrico coalhado de passarinhos indiferentes às buzinas nervosas, e com um catador de papéis que dividia o seu pedaço de pão com um vira-latas saltitante, na fidelidade autêntica que os cães podem nos ensinar. Uma idosa fazia a sua caminhada matinal pela calçada, lentamente e com um sorriso no rosto, debulhando as contas de um terço na mão direita; por quem estaria ela rezando, o que pediria aos céus nessa manhã radiosa de sol? Olhei o pedinte que já é parte da paisagem, cabelos encaracolados e roupa amarfanhada, sentado no meio-fio à espera sabe-se lá de quê, indiferente à pressa dos transeuntes; quem lhe saberá o nome, nessa cidade madrasta que lhe nega colo e teto? Crianças fardadas a caminho da escola, em algazarra feliz, levando nas mãos o futuro como flâmula de esperança. Parado no semáforo, cerrei as pálpebras e lamentei o meu tempo escasso, a minha agenda lotada e o meu celular sempre tocando. Quis, por um instante, ser apenas mais um na multidão, um rosto entre milhares, pés descalços e rosto acariciado pelo vento, compromisso somente com o instante de agora. Mas louvei aos céus o não ter ainda embrutecido o meu espírito, o ser capaz de ver e sentir a eternidade que pulsa, forte e plena, nas dobras de cada momento, dádivas do bem-querer. De pronto vieram-me à mente os versos de Milton Nascimento: ?E há que se cuidar do broto/ pra que a vida nos dê flor/ e fruto?.