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Opinião

Um melancólico adeus

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Muitas livrarias estão fechando as suas portas Brasil afora. A Saraiva e a Leitura diminuíram a quantidade de lojas, a FNAC encerrou as suas atividades e nós, os que somos apaixonados por livros, sentimo-nos como uma criança que vê para sempre fechado o parque de diversões dos seus sonhos, órfãos de uma das atividades mais prazerosas do nosso cotidiano. Eu mesmo não gosto de shoppings, não aprecio ficar batendo pernas em meio a uma multidão carregada de sacolas, mas vou a eles unicamente por dois motivos: os cinemas e as livrarias. E nessas últimas, o prazer que experimento todas as vezes não se resume à compra de um ou vários exemplares, como quase sempre acontece; é também um encontro comigo mesmo, com aquilo que me fortalece a alma, um passeio nas veredas da minha sensibilidade e do meu encantamento. A primeira livraria que eu freqüentei foi a Caetés, à Rua Cincinato Pinto, no centro de Maceió. Era 1985, eu estava recém-chegado à capital e os poucos trocados que o meu pai me dava eu ia juntando ao longo da semana para, na sexta-feira, passar algumas horas folheando as novidades e comprar os livros que foram formando a minha humilde biblioteca, muitos deles ainda hoje comigo, páginas amareladas pelo tempo e capas arranhadas de tanto manuseio. João Maria Pereira e Ricardo, seu irmão, eram de uma simpatia sem par, e me apresentavam autores e novidades. Na Caetés eu fui às primeiras noites de lançamentos de que participei, e nela eu conheci e fiz amizades com grandes intelectuais alagoanos, a exemplo de Gilberto de Macedo, Norton Sarmento Filho, Sidney Wanderley e Marcos de Farias Costa. Jornais literários, exposições de pinturas, declamações de poesias, apresentações musicais ? todas as formas de expressão artística chegaram à minha geração pelas portas escancaradas da Livraria Caetés, marcando indelevelmente a nossa compreensão do mundo. Há uma satisfação toda especial em passear calmamente entre as estantes dos mais diversos gêneros literários, e parar quando uma capa, um título ou um escritor nos chama a atenção. Tomar nas mãos um bom livro é como estar à mesa diante de um bom prato: a sua apresentação já nos faz sentir de certo modo um pouco do seu sabor. A textura do papel, o tipo da fonte, a riqueza das ilustrações, tudo faz com que a gente mergulhe numa série de sensações antes de iniciarmos a leitura propriamente dita, na beleza maior que nos espera. Muitas vezes paqueramos o livro por algum tempo, folheamos aqui e acolá, para só então decidirmos levá-lo conosco para casa. Noutras o abandonamos no início do namoro, atraídos por um seu concorrente mais vistoso que repousa na mesma prateleira. Fato é que os livros, assim como as mulheres, seduzem-nos sem que nem nos apercebamos disso, e de repente sentimos que já não nos é mais possível vivermos sem a sua companhia. Quando se extingue uma livraria, parte da paixão que nos anima perde uma fonte preciosa do seu alimento. E isso é triste, verdadeiramente muito triste.

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