Opinião
Cibernema: o cinema do povo
O cinema se consolidou como arte e cultura analógica ao longo do século XX, evoluindo para a tecnologia digital do início deste século XXI até a presente data. Está em permanente evolução de sua linguagem, de sua estética e de sua ideologia. Como produto de cultura de massas, de acordo com os conceitos da Escola de Frankfurt e particularmente com as ideias de Herbert Marcuse, a atividade cinematográfica tem influência filosófica e politica, sob aqueles a quem se propõe atingir numa perspectiva social mais ampla e irrestrita. Por ser uma arte industrial, daí a denominação de indústria cinematográfica, o cinema trata-se de um ofício inviável e inacessível a maioria das pessoas que possuem talento para realizá-lo. Os custos de realização de um filme, seja ele ficcional ou documental, praticamente inviabiliza as produções fílmicas, mesmo as que se situam no âmbito das chamadas produções de baixo orçamento. Esta inviabilidade perpassa pela pré-produção, produção e pós-produção de um produto audiovisual. Outra grande dificuldade referente a está atividade artística, diz respeito ao processo de distribuição do filme concluído. É extremamente frustrante para um cineasta e para uma equipe produtora de cinema, ver o seu trabalho realizado e empreendido, não chegar às grandes salas de exibição e, consequentemente, aos grandes e tão sonhados públicos. O objetivo do cinema é chegar a sociedade, pois estamos falando de uma proposta cultural que tem por finalidade, o propósito de atingir a consciência social e transformar as realidades a que se propõe intervir. Obviamente que estamos falando do cinema de arte, e não apenas do cinema de entretenimento, comumente conhecido por blockbuster, que tem objeto cinéfilo diferente do chamado cinema de autor. O cinema de cunho artístico tem como sua principal proposta, a construção de uma obra cinematográfica voltada para afirmação de princípios e valores conceituais, humanísticos e idealistas. A concepção Hollywoodiana de cinema, é a pasteurização de um produto visual e sonoro, que se transforme em um produto agregado dos preceitos estabelecidos pelo sistema capitalista, que é o lucro. Foi da observação deste cenário, que escrevi o livro intitulado Cibernema: Do Celulóide ao Celular, que será lançado até o final deste ano, com prefácio, que muito me honra, de Silvio Tendler, um dos mais importantes documentaristas da cinematografia brasileira. O livro parte da frase de um dos maiores cineastas da nossa história, considerado o idealizador do Cinema Novo, o diretor baiano e do mundo, Glauber Rocha, quando afirmou que ?cinema é uma câmera na mão e uma ideia na cabeça?. Esta frase virou um legado. Glauber foi profético. Com o advento da tecnologia digital, evoluiu da ideia para o pragmatismo da ação concreta. Com o desenvolvimento progressivo do telefone celular e a diversificação de suas funções, temos hoje nestes modernos equipamentos, as câmeras que não existiam nos anos 60, período em que Glauber pronunciou a famosa frase que se transformaria em um enunciado para a atividade cinematográfica. Em uma Sociedade do Espetáculo, preconizada pelo filósofo francês Guy Debord, temos no celular praticamente uma equipe de produção de cinema e nas redes sociais, o mercado de distribuição e exibição para esses filmes realizados por este conceito que denomino de Cibernema: um cinema feito pelo povo, com o povo e para o povo!