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Serra da liberdade

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Todo dia 20 de novembro, celebra-se, na Serra da Barriga, localizada no município de União dos Palmares, Alagoas, o Dia da Consciência Negra e do grande líder do Quilombo dos Palmares, conhecido historicamente como Zumbi, referência da luta dos negros em defesa dos ideais de liberdade, justiça e igualdade. A contenda pretérita dos quilombolas de Palmares e outras centenas de quilombos espalhados pelo Brasil, entretanto, não se encerrou com o engodo da Lei Áurea, assinado pela Princesa Isabel no famoso Dia 13 de Maio de 1888. A escravidão foi abolida oficialmente nesta data, entretanto, numa perspectiva histórica, econômica e sociológica, podemos afirmar que as suas consequências a mantem atual na sociedade brasileira, apenas com uma nova roupagem, na qual as populações negras continuam sendo as maiores vítima de um sistema de subjugação, exploração e descriminação racial. Podemos afirmar que as favelas contemporâneas, continuam, na prática, exercendo papel semelhante as senzalas dos tempos da escravatura. O documentário A Última Abolição, da cineasta Alice Gomes, coloca na tela a discussão incomoda e inconveniente, sobretudo para as nossas hipócritas classes dominantes, do mito da democracia racial que predomina no discurso oficial do Brasil. Sabemos que esta interpretação da realidade brasileira é verdadeiramente equivocada. Os intelectuais da burguesia precipitaram uma conclusão inteiramente incompatível com a realidade. O fizeram deliberadamente consciente da sua inverdade. Foi assim, por exemplo, com Casa Grande e Senzala, do genial e conservador sociólogo pernambucano Gilberto Freire, que vendeu a ideia de que vivemos em total integração e harmonia entre brancos, negros e índios em nosso país. Sabemos que a realidade não corresponde aos fatos. Esta feijoada está mal temperada. No caldeirão étnico em que se transformou a sociedade brasileira, predomina muito mais suas contradições raciais e sociais, do que a convivência harmônica entre raças, crenças religiosas e classes sociais. Não faltam maquiagens, no entanto, para pintar uma face na qual não existiria preconceitos e discriminações as mais diversas entre o nosso povo. A luta dos negros do Quilombo dos Palmares, liderados por Zumbi, continua atual, haja visto que não ocorreram mudanças estruturais no contexto da estratificação social, no qual os negros continuam sendo as maiores vítimas do modelo de desenvolvimento econômico, baseado na concentração de riquezas e de relações de trabalho baseadas em princípios que apenas modernizaram as formas de dominação e exploração. Filmei o documentário Serra da Liberdade, exatamente com o objetivo de registrar este evento em que se celebra este período do nosso passado nacional, no qual os negros que fugiam e viviam nos quilombos, ajudaram a construir uma página de resistência da nossa história. A abolição, ao contrário do que conta a nossa historiografia, não foi uma concessão dos poderosos do império, mas um processo de luta pela conquista da liberdade. A Lei Áurea apenas confirmou o que já se previa. O fato é que o Brasil, vergonhosamente, foi o último país a conceder a libertação dos escravos. Isto talvez explique muitas coisas na dinâmica de como evoluiu a nossa civilização. As favelas, a violência que atinge os jovens negros das periferias das grandes cidades e e a falta de acesso às estruturas de poder público e privado pelos afro-descendentes , apenas reafirmam as discrepâncias e o fosso que separam as origens raciais, em uma espécie de apartheid informal da nossa população.

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