Opinião
Meu baobá voltou a sorrir

Acordar cedo, muito cedo, aí pelas quatro da madruga, um velho e incorrigível hábito. Se estiver de férias, domingo ou feriado, nada muda. Meu relógio biológico não tem bateria para trocar. Acho que é ?mal? de família, porque meu pai era assim. Os passarinhos nem começavam a cantar e ele pulava da cama. Não raro minha mãe ficava brava e reclamava: ?Nem dorme e nem deixa ninguém dormir?. Aliás, essa ladainha também ecoa nos meus ouvidos quase todos os dias. Dos quatro irmãos, apenas a mais velha, Maria, única mulher dos filhos, gostava de hibernar até mais tarde. Seguindo o ritual do despertar antes do alvorecer, saio em direção à orla para a tradicional caminhada matinal, encontrar amigos para o famoso ?Breaking Dawn News?. Política, futebol, doenças que não perdoam os idosos! As últimas novidades para cuidar da próstata, a performance sexual de cada um, verdadeiro festival de autoelogios e mentirinhas nada discretas. Pelo menos uma vez por mês desvio meu caminho para um abraço afetuoso num velho conhecido. O Baobá, uma árvore solitária que há anos está ali, ao lado de um ponto de ônibus na Praça do Skate, em Ponta Verde. Por que faço isso? Ao tocá-lo me transmite um fluxo energético indescritível. No abraço vem a sensação de descarregar todas as tensões, cansaço, decepções, tristeza. Não imagino como a psicologia explicaria esse sentimento de alívio! Apenas me faz bem, sinto-me leve sempre que reencontro o silencioso amigo. Como chegou àquele lugar, não sei. Há quanto tempo e quem o plantou, como vou saber? É uma árvore símbolo da cultura tradicional africana. Acreditam os afros que o Baobá tem uma conexão entre o mundo sobrenatural e o mundo material. Sobrevive por milênios, até vinte mil anos e chega a alcançar incríveis vinte metros de altura. Seu tronco gigantesco é recoberto por uma casca medicinal, diz a sabedoria popular. A praça onde vive o meu Baobá, há décadas estava abandonada, entregue à marginalidade. Ponto de encontro de infelizes drogados, moradores de rua que lá, coitados, buscavam refúgio para passarem dias e noites sem esperança de que o Ano Novo lhe traria alívio para tanto sofrimento. Ao cruzar aquele lugar para abraçar o meu amigo antes do sol nascer, sentia medo. Medo de ser abordado por marginais. Temia a reação dos alucinados que, talvez, não entendessem o porquê do meu afeto com o formoso ?pé de pau?. O odor que exalava no local era simplesmente insuportável. Até que a maconha não incomodava tanto. A catinga de fezes e urina, essa sim, penetrava pelas narinas cuja acidez embolava o estômago. Enfim, a vida solitária do meu Baobá mudou. Ele não está mais sozinho, triste e abandonado naquele canto de calçada. A praça renasceu, trouxe luz, vida e alegria. O que antes era um cenário assustador, transformou-se num palco livre para pessoas de todas as idades. A antiga tenebrosa Praça do Skate, trouxe de volta reencontros, abraços, ternura e lazer. A praça do medo, agora, é a Praça da Alegria.