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domingo, 31/08/2025 | Ano | Nº 6044
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Temores infantis

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Do quintal enladeirado da minha casa, em muitas noites se podia ver um clarão lá para as bandas do alto do Cruzeiro, nas terras da fazenda Cansanção, como luzes que corriam uma em direção à outra e, ao se encontrarem, faziam surgir uma labareda só. Diziam os mais antigos que era o Fogo-Corredor, compadre e comadre que haviam sucumbido às tentações da carne e ardiam ainda em vida, prenúncio do que iriam enfrentar no inferno a que já estavam condenados, inapelavelmente. Todo mundo em Murici acreditava nessa sina, e enquanto uns se apiedavam daqueles pobres penitentes outros se punham a vociferar contra os infratores da lei divina, achando bem feito o castigo que lhes fora imposto. Nós, meninos, mal olhávamos para o outro lado do Mundaú depois que a lua aparecia, temerosos de sermos surpreendidos com aquela visão fantasmagórica. E bastava o clarão dos faróis dos caminhões de cana para nos deixar em polvorosa, quando brincávamos pela calçada, fazendo-nos correr para a segurança do colo materno. O Papa-figo era outro dos nossos temores de criança, talvez o maior deles. Qualquer velho maltrapilho que viesse pela ponte, vestido em andrajos e com um saco às costas, para nós era o próprio sequestrador de criancinhas, pronto para arrancar e comer o nosso fígado cru, visando curar-se de uma doença atroz. Alguns dos meus colegas mais dramáticos juravam que tinham visto pequenos pés pendurados no saco, ainda melados de sangue; nós os ouvíamos atentamente, calados e aterrorizados, olhando esbugalhados para todos os lados para ver se o monstro não estava se aproximando à sorrelfa. E como naquele tempo o que mais havia eram os moradores da zona rural que vinham à cidade vender a sua pequena produção de frutas, hortaliças e verduras, nem é preciso dizer que andávamos sempre sobressaltados, achando que o inimigo vivia à nossa espreita. Na boquinha da noite, sentadas na calçada, nossas avós contavam-nos histórias de corpinhos que tinham sido encontrados no meio dos canaviais, com a barriga rasgada e os órgãos vitais arrancados, os olhos perfurados pelos urubus, e aquilo era para nós o motivo que haveria de limitar muitas das nossas andanças pelas ruas mais distantes. A Peste também integrava o rol dos nossos sustos. Seria uma mulher alta, seca de carnes, sempre vestida de preto, o rosto encovado, os olhos fundos, os longos cabelos negros soltos e mal cuidados. Ela nunca falava com ninguém. Andando sempre sozinha, entrava silenciosamente durante a noite nas casas onde a houvessem invocado, e levava consigo a primeira criancinha que encontrasse, para nunca mais devolvê-la à sua família. Jamais deveríamos, portanto, pronunciar o ?eita, peste?, nem chamar ninguém de ?fi da peste?, pois isso a atrairia para os nossos lares, pondo em risco nossos irmãozinhos ou nós próprios. Eram medos que nos faziam perder o sono e que estimulavam os nossos pesadelos mais pavorosos.

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