Opinião
Programa de índio

No dia 19 de abril é comemorado o Dia do Índio, àquele cidadão que já habitava essas terras antes da chegada, por acaso, das caravelas portuguesas, comandadas por Pedro Álvares Cabral, no ano de 1500. Este dia autóctone foi instituído pelo Decreto-lei No 5.540 de 02 de junho de 1943, do Presidente Getúlio Vargas. Esta data foi decidida para esta comemoração étnica, tendo por base o I Congresso Indigenista interamericano, realizado no México em 1940, ocasião em que foi proposto o dia 19 de abril para se comemorar esta efeméride em toda América. Trata-se, portanto, de uma data continental. A pergunta que não quer calar, entretanto, neste momento em que assistimos o aprofundamento de políticas de retrocessos governamental e civilizatório, é se há algo a ser comemorado neste tal Dia do Índio? A letra da música Todo Dia Era Dia de Índio, interpretado na inconfundível voz de Baby do Brasil, revela que ?no entanto hoje, o seu canto triste é o lamento de uma raça, que já foi muito feliz, pois todo dia era dia de Índio e agora eles só têm o dia 19 de abril?. Podemos constatar, pelas últimas medidas adotadas pelo governo Bolsonaro, que a população indígena tem cada vez mais seus direitos e garantias sendo retirados pelo homem branco. O desrespeito a cultura nativa tem aumentado significativamente, sobretudo neste governo, em que a Ministra dos Direitos Humanos Damares Alves, quer converter os índios pela prática e pregação evangélica, tendo a bíblia como modelo de substituição de seus costumes e tradições animistas. Isto sequer tem resquícios de originalidade. Para tanto basta assistir ao magistral filme A Missao, de 1986, dirigido pelo grande realizador Rolland Joffé, com os grandes atores Robert de Niro, no papel do mercador de escravos Rodrigo Mendonza e Jeremy Irons, interpretando o padre jesuíta Gabriel. O filme se passa em meados do século XVIII, na chamada região das missões, no Rio Grande do Sul. Para esta plaga foram designados membros da ordem jesuíta, que tinham como ?missão?, converter e evangelizar os índios nativos ao cristianismo e terminaram por servir a opressão dos regimes colonizadores de Portugal e Espanha, regido pelo Tratado de Madrid. Os índios foram as vítimas que antecederam os negros, trazidos pelos navios negreiros da África, para servirem de mão de obra escrava para um modelo de desenvolvimento baseado na opressão, na exploração humana e na violência física e moral. Assim foi escrita a nossa história. O escritor uruguaio Eduardo Galeano escreveu um dos mais importantes livros da história da literatura mundial, um verdadeiro tratado histórico, intitulado As Veias Abertas da América Latina, clássico que retrata a exploração e extermínio da população indígena, do banho de sangue do período colonial, até a destruição de suas civilizações pelo capitalismo predatório, que destruiu diversas tribos por todo o continente, em razão do desenvolvimento econômico sem escrúpulos e critérios de preservações ambientais. A prerrogativa da demarcação das terras indígenas foi transferida pelo presidente Bolsonaro da Funai - Fundação Nacional dos Índios, para o ministério da agricultura, comandado por prepostos do agronegócio e dos ruralistas, no maior atentado aos direitos e garantias das populações silvícolas nos últimos séculos, pois entrega a sobrevivência das tribos nas mãos de seus inimigos históricos. A Ministra Damares Alves, que de matas e florestas, parece só entender mesmo de goiabeira, nomeou para a presidência da Funai, o General Franklimberg Ribeiro de Freitas, que acabou de deixar a presidência do Conselho Consultivo para assuntos ambientais e indígenas da mineradora canadense Belo Sun, que tem interesses em áreas de reservas. Fica a indagação: qual serão os programas dos Índios daqui para frente?