Opinião
Registros memoráveis dos filhos da terra de Junqueiro
Debrucei-me sobre o livro ?JUNQUEIRO: REGISTROS MEMORÁVEIS? do Prof. João Augusto narrando histórias e estórias da pequena cidade, localizada na mesorregião do Leste Alagoano. Só parei quando acabou, de tão saboroso e retomei lentamente. Interessa a toda pessoa curiosa pela vida pública e privada no Brasil, durante o século passado. Em 2018, teve população estimada em 23.854 almas, de clima temperado entre 35 e 22 graus celsius, porém não tem saneamento e a metade de sua população ainda não ganhe um salário mínimo e seu IDH já seja moderado acima de 0,6. Sua riqueza vem da agricultura e da agropecuária, liderada pela cana de açúcar, também da mandioca, algodão e feijão. O edil municipal é dr. Carlos Augusto, jovem e afável prefeito, de mãos ingentes e entusiasmadas. Sempre se decantou a beleza de suas mulheres.Duas são incontornáveis: profa. Lenilda Pereira na década de 60 e Augusta Cruz na primeira metade do século XX. D. Lenilda, além de bonita, era chick. Todos nós a paqueramos à distância, secretariou o Ginásio. Augusta Cruz, além da beleza tinha expressão intelectual e foi a oradora do Centenário da Independência do Brasil em 1922. E avó da atriz Renée de Vielmond. Lourdes Cruz, mãe de Renée, era intrépida, sagrando-se advogada e delegada da Receita Federal, ainda vive. Ela registrou seus mergulhos no Rio Piauí com outras adolescentes nuas em pelo e garante nenhum rapaz as brechou. Houve políticos eminentes em Junqueiro, alguns mais aguerridos às necessidades da terra natal, que outros. Benedito de Lira, fez carreira de vereador da pequena cidade até o Senado da República; José Tavares foi vice-governador duas vezes e numa delas exerceu a governança, tendo sido a vida inteira deputado estadual. Temos um bispo católico, Dom Henrique Soares, mas ele não corrigiu a wikipedia, que diz ter nascido em Penedo. Verdade, porque assistência obstétrica só existia naquela cidade, mas todos fomos gerados e gestados na terrinha. E havia os que recorriam às parteiras práticas, tendo, dona Antônia sido a maior em Olho D?água. Um líder local proeminente foi João José Pereira, edil municipal por 4 vezes. Deles, o maior foi o deputado Tarcísio de Jesus, porque libertou milhares pela educação e ganhou de Paulo de Castro Silveira o epíteto de Titã das Alagoas. No interior, essas Escolas tinham sempre o nome do Padroeiro/a da cidade, atenuando as richas políticas. Tantos mestres ficaram na história: Lourival Nunes, de formação clássica de seminário, ensinava português, fundou o Grêmio Jorge de Lima e fazia proselitismo com a frase: ?eles puderam, elas puderam, por que também eu não posso?, citando-a em latim. Ivanete(Nega) e Salete do Leó dominavam a matemática e nunca esqueceram os alunos aplicados. Sebastiana em História, cultura tanta que sobrava; Colaço, em Ciências, se debruçava sobre os interessados. Lenine, era muita inteligência e não se cingia ao tema específico de Geografia. Mas impaciente com qualquer frase deslocada. As gerações se sucedem, pois ?a vida é a repetição ao infinito de um SER, em outro que nasce dele?. (J. Monod) e ? a história apenas uma narrativa?(Evaldo Cabral de Melo). Junqueiro teve duas bandas de música. Em 1900 a Hera Junqueirense e na década de 40 a Cruzeiro do Sul. No folclore, famoso foi o reisado do João Júlio e as encenações teatrais autodidatas de dona Lulu. Padre Manoel Vieira iluminou a juventude junqueirense nas décadas de 60/70 e até revistas de telenovelas comprava pras moças. Para mim, emprestou-me as conferências de dom Hélder Câmara no exterior ao receber seus títulos de doutor Honoris Causa. O Edson dos correios permitia que os estudantes curiosos lessem sua ?Gazeta de Alagoas?. Quatro famílias se alternaram no poder: os Jesus, os Tavares, os Almeida, e os Pereira. Dos Jesus, quero referir-me ao bisavô Antônio Joaquim de Jesus, que foi juiz de paz, conciliava, casava oficialmente e gozava de imenso prestígio na comunidade. Seguiram-se Pedro Joaquim de Jesus, prefeito, que libertou as professoras da indigência na aposentadoria, recolhendo previdência para todas. Juca Joaquim vice-prefeito da mesma família e o mais importante Tarcísio de Jesus, deputado por seis legislaturas. Ganhava a eleição em primeiro lugar sem fazer um discurso e sem subir em palanques: trabalhava de ano a ano , confessou quando interpelado pelo Senador Arnon de Melo sobre essas vitórias. Nesses tempos insanos de João de Deus, impossível não recordar a alma grande dos avós Mocinha e Zé Marques que adotaram mamãe e mais cinco mulheres, mesmo tendo engenho banguê. Alfabetizaram todas e nunca ele tocou nenhuma. Um punhado de junqueirenses naturais ou do coração anualmente comemoram no último sábado de novembro o dia dos ?Filhos da Terra?, pela dedicação intrépida de João Augusto, Margarida de Jesus, Rejane, Geraldo Barros, João Marques, Prof. Edvaldo e tantos mais que tantos.Atualmente sob direção da poetisa Zuleidina. ?Patriotismo é o que restou da infância?, assinalou Proust. Assim esses registros memoráveis. Só lendo o livro. ?A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como recorda para contá-la?, escreveu o autor de ?O amor nos tempos do cólera?.