Opinião
Terrorismo no Brasil
Não faz muito tempo, quando ainda blogueiro do portal Gazetaweb, apresentava preocupação com o crescente número de explosões a caixas eletrônicos no país, que consolidava o uso de explosivos por criminosos comuns, descobridores das facilidades operacionais com a nova arma. Diferente das armas convencionais, os explosivos são adquiridos com mais facilidade, não têm número de série, quando muito a identificação do lote no fabricante, facilmente apagado ou mesmo destruído com a explosão. Os custos de aquisição são mais baixos, em razão de furtos internos e sobras de cargas em pedreiras e demolições. Naquele momento, as explosões eram direcionadas aos caixas eletrônicos, mas já projetava o uso de explosivos para outras demandas, até mesmo no enfrentamento às forças policiais. Não era preciso ser visionário, os bandos chegavam às cidades e encurralavam a polícia atirando em suas viaturas e instalações; então, evoluir para arremessar cargas de explosivos não demoraria muito, porque se livrariam da possibilidade de tiroteio e garantiriam a paralisação da tropa policial. Ainda na projeção de cenários, acreditava que os criminosos usariam explosivos para atacar grandes e valiosos pontos comerciais, posto que é tarefa mais simples que roubar uma camionete e utilizá-la em marcha à ré para arrombá-los. Seguindo no cenário apocalíptico, projetávamos a ampliação do uso de explosivos por traficantes na guerra por território contra rivais, fazendo surgir a sensação de terror provocada por criminosos comuns e organizados enfrentando o Estado, não por motivações ideológicas ou religiosas, apenas para cometer crimes ? o terrorismo Made in Brazil. Não demorou muito, já em 2015, criminosos utilizando explosivos promoveram duas fugas em massa nos presídios pernambucanos Professor Barreto e Frei Damião de Bozanno, gerando terror nos habitantes do entorno das unidades prisionais, com suas casas invadidas por foragidos e policiais em busca deles. Outros presídios brasileiros sofreram mais ataques e o modus operandi foi consolidado. Em abril de 2017, os paraguaios acordaram com a notícia de uma explosão na transportadora de valores Prosegur em Ciudad del Este, que se liga com Foz do Iguacú/PR através da Ponte da Amizade, construída sobre o Rio Paraná. As investigações identificaram a participação de assaltantes brasileiros ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), que dali saíram com cerca de 40 milhões de dólares. A expertise no emprego de explosivos creditada ao PCC foi rapidamente multiplicada pelo Brasil; sua aliada no Ceará ? os Guardiões do Estado (GDE) ? já em 2016, aterrorizou o estado ameaçando explodir órgãos públicos como a secretaria de segurança e a assembleia legislativa, caso não fossem atendidas as exigências deles que garantiam melhor convívio no sistema penitenciário do Estado. Para mostrar do que seriam capazes, os líderes da facção mandaram incendiar 16 ônibus. No início deste ano de 2019, o Brasil foi surpreendido como uma onda de ataques que aterroriza o Ceará, patrocinada pela união das facções criminosas que comandam os presídios no estado ? Comando Vermelho (CV), PCC e GDE. Nos primeiros 23 dias do ano já são contabilizados 237 ataques distribuídos em 50 cidades, atingido alvos antes não imaginados ? torres de transmissão de energia, escolas, postos de combustíveis, caminhões coletores de lixo, viadutos, pontes, veículos de autoescola com aluno e professor em seu interior, até creches. O governador do Ceará já admite que a onda de ataques deve ser tipificada como atos de terrorismo, sugerindo mudança legal que puna os criminosos com maior severidade. O governo federal responde com o envio de reduzido grupo de policiais da Força Nacional, servindo mais como uma imagem do que mesmo um apoio efetivo. O resultado desse enfrentamento que o Estado promove contra essa onda de terror poderá estabelecer um marco no país, que determinará o fim ou a continuidade da expansão do terrorismo Made in Brazil.