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domingo, 31/08/2025 | Ano | Nº 6044
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“Socorro, meu bairro tá afundando ...!”

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Ainda meninote e de calças curtas, ao entardecer, costumava sair em disparada da casa onde nasci. Havia sempre razão relevante para essa pressa: ou o ?racha? em frente à casa de meus pais, em campo improvisado no terreno baldio, ao lado da residência da dona Rosa, que criou sua prole como lavadeira de roupas; ou a fuga para o sítio, com mangueiras, coqueiros e até cavalos e gado de leite, onde meu pai se sentia em seu habitat, como nos velhos tempos de Murici. Estas e outras passagens, que em mim se faz presente como parte inestimável da memória afetiva, ocorreram bem ali no bairro do Pinheiro, na esquina da rua Natal com a São Jorge. As placas que denominam esses logradouros já não acusam o batismo de origem, porque os nomes foram modificados, seguindo a mesma insensatez que atentou contra a história de outras ruas de Maceió. Mas, a identidade é tão forte que qualquer carta ainda hoje postada, com destino à rua Natal, chegará certamente sem dificuldade. A força que impulsionou o crescimento de Maceió em seus primórdios, a partir da região portuária, ganhou novos estímulos em outras etapas e regiões. Assim ocorreu com o Farol, o ponto territorial isolado para expandir o novo eixo de desenvolvimento da capital, da segunda metade do século passado em diante. Margeando a avenida Fernandes Lima, o Pinheiro compôs essa expansão, na fronteira com o velho Cepa, que já completou 60 anos e ainda se apresenta como genial sacada de gestores do passado. Do Cepa até o limite da reserva florestal, ao se avizinhar com a Gruta de Lourdes, tudo é Pinheiro. Assim como a história gloriosa do Central Esporte Clube e as apresentações de Luiz Gonzaga, em palco fincado próximo à venda do ?seu? Nezinho. No Pinheiro, a trajetória do saudoso vereador Manoel Aureliano Reis e sua autoescola, a construção do conjunto Jardim das Acácias, as oportunidades surgidas na região do Sanatório e os grandes edifícios residenciais e comerciais da atualidade. Uma formação que também passa por todas as crenças - dos seguidores da Igreja Batista aos da Paróquia Menino Jesus de Praga. Vale também citar uma das passagens da história da aviação alagoana. O Pinheiro teve seu campo de pouso e decolagem, que funcionou até os idos de 1960. Os registros indicam: a pista começava próximo à rua Belo Horizonte e se estendia até onde se edificou a Praça Arnon de Mello. Com mais de 20 mil habitantes e compondo a terceira região administrativa de Maceió, o bairro do Pinheiro nasceu para ajudar a capital a decolar rumo ao Tabuleiro do Martins. É, portanto, uma cruel ironia se deparar com esse quadro aterrador, segundo o qual o bairro registrou tremores, sofre com rachaduras e já apresenta pontos de afundamento. Em vez de projeto de modernização, passa a conviver com estado de emergência e plano de contingência. Milhares de famílias vivem numa tormenta cotidiana e desmedida, tendo ainda seus imóveis condenados ao ostracismo imobiliário. Onde havia paz, agora há medo, angústia e incerteza. As causas dessa tragédia ainda são desconhecidas. Se, ao cabo das investigações, os especialistas provarem que elas são decorrentes de mãos gananciosas e predadoras, que se faça justiça e que os culpados por tamanho crime recebam punição tão salgada quanto o sal-gema, extraído há mais de 40 anos das profundas jazidas presentes em áreas contíguas ao Pinheiro, ao lado da lagoa Mundaú.

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