Opinião
Filhos do mesmo Deus
Jamais fui homofóbico. Possuo diversos amigos homossexuais, alguns inclusive formando casais, e muitos deles estão entre os que eu mais admiro e respeito por sua competência profissional e por sua postura pessoal. Dou-lhes beijos e abraços assim como nos meus outros amigos que são héteros, pois não me interessa a opção amorosa de nenhum deles, nem a religião que professam ou o time pelo qual torcem. Basta-me conhecer a sua alma repleta de sensibilidade, o seu coração isento de ódios e a sua obstinada decisão de fazer o bem sem olhar a quem. Sejam homens, mulheres ou gays, o que me importa é sabê-los pessoas que se esforçam para ser melhores, e desse modo tornarem melhor o mundo conturbado em que vivemos. Também nunca tive nenhum preconceito racial. Dois dos meus melhores amigos de infância, Dominguinho e Geraldo, eram negros (?marronzinhos?, como eu dizia à minha mãe), e foi com eles que aprendi que alma não tem cor; também a minha avó Maria era bem morena, descendente de índios e de negros, assim como uma antiga namorada da juventude, mulher bonita e decente, e outros amigos que fui fazendo ao longo da vida. Eu mesmo, com os meus cabelos crespos, os lábios grossos e o nariz de porronca, não posso me considerar um branco dos mais puros, apesar da pele alva e dos olhos claros. Na casa da minha meninice, em Murici, as portas sempre foram abertas para ricos e pobres, e a velha mesa de fórmica da sala de jantar acolhia fraternalmente gente de toda qualidade. ?São todos filhos do mesmo Deus?, repetia dona Izarele de Souza em seu mantra de bondade. Gosto de ver o que há de bom nas pessoas, de descobrir o que às vezes se esconde por detrás de uma fisionomia carrancuda ou de um silêncio sepulcral. Um amigo meu é mais grosso do que parede de igreja, entretanto escreve para o seu filho portador da síndrome de Down estórias infantis próprias de uma alma que não desaprendeu a ser criança. Outro ensina jumento a dar coice, mas se derrete todo quando a netinha puxa os seus vastos bigodes brancos. Uma terceira, corriqueiramente enfezada e reclamona, desfaz-se em mimos para a pequena afilhada que a chama de vovó. Tenho testemunhado muitos desses exemplos em minha caminhada, e cada vez mais renovo a crença na riqueza interior que cada ser humano possui, na sua capacidade de se encantar com o que é belo, na sua possibilidade de vislumbrar novos horizontes para a própria existência. A tecnologia moderna é admirável, as novidades nos surpreendem a cada momento, tudo parece em eterna ebulição; mas o que me chama mesmo a atenção é a pessoa, essa obra prima da criação que não cessa de se reinventar.