Opinião
II- As leituras, as bibliotecas de Dom Hélder Câmara e uma sabatina
Em 1988, veio a Maceió, Dom Hélder Câmara, convidado pelo metropolita Edvaldo Amaral. Disparo um telefonema à casa do Arcebispo e pergunto se não receberia um professor da Ufal. Aceito, cheguei com quatro perguntas: o homem tinha 32 títulos de Doutor Honoris Causa de Universidades do mundo inteiro, e ao recebê-lo em Haward traçou um paralelo entre Aristóteles e Tomás de Aquino e inquiriu: - se dou comida aos pobres, sou um santo. Se pergunto, por que têm fome, sou comunista! O sr está convencido de que na transformação do mundo a ideologia nada vale, mas apenas a transformação das pessoas? ? Nem só a ideologia, nem só a fé. Continuou:- entrei na Universidade pela janela, já que tinha apenas a formação superior eclesiástica e enfatizou sua confiança no que esta instituição poderia fazer para transformar o mundo. No Nordeste, ao chegar, causou logo escândalo na posse em Recife: ?no Nordeste, Cristo se chama Zé, Antônio, Bastião. Com o comandante do 4º exército no palanque, disparou referindo-se à reforma agrária: ? não é porque as bandeiras estão em mãos erradas, que vamos deixá-las no chão?. O General debandou imediatamente. Dom Hélder foi indicado quatro vezes ao Nobel da Paz e num deles era o único candidato, mas não foi escolhido, devido à interferência política da ditadura militar junto ao Comitê do Prêmio, porque denunciava as torturas do regime no exterior. Então vários países lhe conferiram Prêmios, e um deles, o Prêmio Popular da Paz, entregou o dobro do valor do Nobel, que aplicou em fazer reforma agrária num engenho. Prof. Nogueira perguntou: o sr. acha que o povo precisa de educação? - Não fazer nada para o povo, mas com o povo.Esse negócio, vamos ensinar a ler, escrever...o povo sabe pensar.Educação no meu entender é ensinar e aprender. Quanto à distribuição do consumo das riquezas do mundo, em que 20% da população consome 80% dos bens, é uma questão de inteligência, o mundo tem que ser um só: ?do homem todo e todos os homens?(Paulo VI). Como mantém tanta esperança? - O meu lado pessimista fica adormecido. Cinco lemas ficaram nítidos: vomitar o pessimismo; não se preocupar com coisas pequenas(bicho de pé); acabar com estrelismo; fazer coisas com o povo e não para o povo. Certo jornalista na TV quis pegar Dom Hélder e detonou ao vivo: - o que acha do topless? - eu não tenho preocupação com quem tem roupa pra tirar, eu tenho preocupação com quem não tem roupa pra usar. Humano, demasiado humano(Nietzche), foi D. Hélder a vida inteira: diante de alguém com fome primeiro saciá-la. Louvar apenas em seguida:? não se pode rezar com fome ?.