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Opinião

As devoções de vovó

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Toda primeira sexta-feira de cada mês, minha avó Izarele, naturalmente piedosa e compenetrada em suas orações, ficava ainda mais próxima das coisas celestiais. Era o dia dedicado pela Igreja ao Sagrado Coração de Jesus, e a antiga estampa saía das páginas do velho ?Adoremus? e ia pousar na prateleira dos santos, ao lado da vela acesa, enquanto vovó cantava o hino sacro que mais marcou a minha infância: ?Coração Santo, tu reinarás; tu, nosso encanto sempre serás?. Vovó passava todo aquele dia com a fita do Apostolado da Oração pendurada no peito, o vestido azul-marinho cuidadosamente passado e o sapatinho preto nos pés, trajada de modo adequado para reverenciar o Filho de Deus. A estampa possuía em sua base uma inscrição em francês que ninguém na minha casa sabia o significado, e que somente há poucos dias foi-me traduzida por Carlos Méro: ?Este coração, abrigo de amor onde o homem torna-se anjo, é a tocha eterna de que se iluminam os céus?. A mãe da minha mãe não possuía um oratório daqueles antigos, de madeira escura e paredes de vidro, como era comum nas residências da minha meninice. Os santinhos que ela venerava eram acomodados numa pequena prateleira suspensa no quarto que nós dividíamos, os quais escutavam as suas rezas matinais e noturnas. A maior parte das imagens era de gesso; lembro-me de Nossa Senhora de Fátima, Padre Cícero do Juazeiro, São Pedro Apóstolo e a Virgem de Aparecida, além de dois pequenininhos que até hoje estão comigo: um Santo Onofre de madeira, que por muito tempo ficou mergulhado no pote de farinha para garantir fartura, e um São Vicente de plástico fluorescente, que acendia quando as luzes se apagavam. Na parede, uma bela gravura de Santo Antônio de Pádua que agora também me pertence, e perante a qual vovó fazia as suas famosas trezenas no mês de junho, com as ?sortes? feitas à mão e avidamente disputadas pelas moças casadoiras de Murici. Dona Izarele temperava a garganta com um pigarro e puxava o responsório do taumaturgo milagreiro, no que era acompanhada com entusiasmo pelas devotas em busca de um bom marido. Depois vinham os comes e bebes, as comidas juninas e o ?laco-paco? preparado com esmero por meu avô Otávio Santos, corpo e alma revigorados na alegria fraterna. Um reumatismo crônico impedia minha avó de ir às missas, às novenas e às festas religiosas. Banzeira e arrastando os pés, ela praticava a sua fé entre as paredes do lar, rezando enquanto cuidava das panelas na cozinha, fazendo caridade com a pequena aposentadoria de serventuária da justiça, ouvindo com paciência os que buscavam os seus conselhos e matando a fome de muitos que se achegavam à nossa mesa simples. Fiel ao Sagrado Coração de Jesus, fez-se anjo de bondade para uma porção de gente. Se ela não tiver alcançado o céu, eu realmente não imagino quem o poderá alcançar.

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