Opinião
Da lama ao caos
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O ensaísta e historiador francês Paul Guth escreveu: “Outrora os analfabetos eram os que não iam à escola; hoje são os que a frequentam”. A afirmação, meio paradoxal, retrata bem a miséria educacional da maioria dos alunos do ensino básico, que vai à escola apenas para receber o diploma. Isso é uma regra geral em que as exceções estão cada dia mais raras.
Na minha longa jornada como professor, vivi momentos críticos contra os quais lutei incessantemente: o descaso com o processo educativo, a má influência de quem não via a educação como instrumento de mudança de vida, ou mesmo a relutância do aluno contra o processo firme de disciplina e de respeito ao professor, por exemplo, não eram motivos para desânimo. Matávamos um leão por dia sem problemas. Hoje não só esses pontos citados se intensificaram, como também veio uma série de novos obstáculos para colocar à prova a novíssima geração de educadores. Conversando com um jovem diretor de escola, percebi que as mesmas aflições de outrora se mostram bem presentes na vida contemporânea da escola. “Agora os professores”, disse ele, “estão passando por um momento extremo: estamos travando uma batalha contra o obscurantismo sem apoio social.
É como se o guerreiro do bem, o professor, lutasse sozinho contra o exercito do mal, a ignorância. Guerra injusta. São muitos contra um só. E a ausência mais sentida por nós vem da família. Em geral, não se conta com os responsáveis pelo aluno perante a trajetória educacional. A família lavou as mãos e jogou toda a responsabilidade para a escola. Isso já vem acontecendo há algum tempo, só que a sociedade vem ratificando o trabalho meia-boca, o imediatismo infame da família por qualquer trabalho e a glorificação da mente vazia, logo as instituições de ensino se tornaram um ambiente hostil. Se a melhor visão juvenil de futuro se resume a duas ou três postagens numa rede social, é porque o caos está instalado”. Até a geração passada, quando o aluno não prestava atenção à aula, dávamos a ele conselho; quando faltava muito, íamos atrás das explicações; quando não se esforçava, procurávamos as razões e o ajudávamos.
Tudo isso com o total apoio social, representado pela entidade familiar. A família estava do lado do professor, agregando força ao processo de educação do jovem. Mais do que a radicalização do discurso (embora eu o valido com insistência), devemos concentrar esforços nas ações de resgate à parceria escola-família, à plena vivência dos estudantes na escola (com respaldo da sociedade) e, não menos importante, à valorização do educador como construtor-mor de uma nova sociedade, a partir da preparação de jovens ávidos por conhecimento, conscientes, maduros e letrados. O Brasil sofre com estatísticas crescentes a respeito do baixo nível de rendimento escolar. Pensando nessas dificuldades, sabemos que o ponto de partida da mudança deve ser por meio de um passo mais firme em direção a um novo horizonte. E tem de ser agora, para que saiamos desse caos contra o qual nos debatemos.
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