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domingo, 31/08/2025 | Ano | Nº 6044
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Opinião

O conflito selvagem do cotidiano

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A controvérsia sobre a possibilidade de que a barragem de Brumadinho estaria seriamente ameaçada há quase dois anos e que a VALE não tomara as providências devidas, culminando na maior tragédia ambiental nacional, surgiu concomitantemente ao desastre do helicóptero --- que não estava liberado para o transporte de passageiros --- que matou Ricardo Boechat, advindo em seguida ao incêndio do Ninho do Urubu, que matou 10 jovens jogadores do Flamengo e que não tinha alvará de funcionamento. Pergunta-se: Existe ausência de leis ou frouxidão nas suas aplicações? As tragédias supracitadas não poderiam ser explicadas simplificadamente por uma passagem de Dante, quando escreveu em Purgatório: ?Existem leis, mas não quem as proveja?. Isso seria simplificar em demasia uma questão tão complexa, como a existência de leis e o seu uso minimamente adequado à sobrevivência de uma sociedade que aspira e busca ares mais civilizados. A pulsão nacional pelo descumprimento das leis, ou o uso da Lei do Gérson, aquela que almeja tirar vantagens de tudo que puder e o tempo todo,o que dá no mesmo, foi objetivo obsessivamente procurado durante muito tempo e ainda faz parte do cotidiano e do âmago de parcela da população brasileira. Pode-se ver isso a todo o momento: basta circular pela Pajuçara e Ponta verde onde existem várias faixas de pedestres, mas seja qual for a hora ou dia,incontáveis pessoas de todas as idades e procedências cruzam a avenida fora das faixas,muitas vezes a poucos metros das mesmas, como movidas pelo maléfico prazer de transgredir a lei.Concomitantemente, motoristas também não param quando pedestres usam as faixas, não dão sinais de entradas, o trânsito de veículos e pedestres é uma amostra da selvageria cotidiana brasileira. Burke afirmou: ? A lei tem dois e apenas dois fundamentos: a equidade e a utilidade?. Ao tempo no qual o ministro Sérgio Moro lança para a apreciação do Congresso o seu Projeto Anticrime, que visa reduzir a alta criminalidade que campeia no País e ameaça a todos,e juristas majoritariamente o apoiam no que ele puder combater a violência urbana, o crime organizado e a corrupção de colarinho branco,uma proposta aparentemente alinhada à fração majoritária da sociedade, essa mesmo que cobra rigor no combate aos crimes e transgressões e o uso rigoroso das leis, assim como a criação de novas ainda mais rigorosas --- em sua saga humana de equívocos e contradições --- sempre que pode, comete as suas pequenas , mas sempre abusivas, infrações. O conflito permanente entre o velho instinto selvagem brasileiro da Lei do Gerson e o desejo de constituir uma sociedade mais civilizada, mais harmônica e menos anárquica se expressa cotidianamente. Quem vai ganhar essa disputa, não arrisco palpitar.

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