Opinião
Por que um castigo tão doloroso?
As tragédias se sucedem justo no início de um ano cheio de esperanças. Porque o mal desabou sobre os brasileiros? Famílias de coração dilacerados choram seus mortos engolidos pela lama ou pelo fogo e a fúria dos ventos e da chuva devastadores. Não há lembrança recente de eventos com tamanha proporção e tantos mortos. Em dezembro de 1961, poucos lembram, o Grand-Circo Norte Americano instalado em Niterói pegou fogo matando mais de 500 pessoas. 70% eram crianças que assistiam à matinê, uma fatalidade que abalou o mundo. 2019 em menos de 60 dias com o desastre da Vale, tromba d?água no Rio e o incêndio do CT do Flamengo, pode chegar a um número próximo das quatrocentas ou mais vítimas fatais identificadas ou não. Abriram-se feridas incuráveis que ficarão para sempre na lembrança de parentes e amigos. Por que tanto sofrimento? Crianças e mulheres, trabalhadores e idosos perderam precocemente o direito de comungar a vida com suas famílias. Brumadinho, só em lembrar o tamanho da dor que flechou tantos irmãos, nos dá uma tristeza incontrolável. Por que, Deus, tamanho infortúnio? O povo não roubou, não corrompeu, não foi corrompido, não usufruiu da luxúria tirando o pão da boca dos oprimidos. Foram eles. Por que, então? Como apagar da memória que centenas de seres humanos foram assassinados, afogados num tsunami de lama graças a ganância e a certeza da impunidade? O que dizer da cremação extemporânea daquela garotada da base do Flamengo, inocentes, tão felizes, cheios de sonhos, vislumbrando um futuro estrelado! Da extirpação psicológica dos pais, irmãos e amigos? Por que o Brasil foi ?contemplado? nesse início de ano com castigos tão amargos? Impossível entender os desígnios que vêm do além, mas quase todas as tragédias foram anunciadas. Sabia-se que cedo ou tarde algo grave poderia acontecer graças a pequenez do ser humano quando não aceita reduzir seus lucros bilionários com prevenções que evitem o holocausto dos mais fracos. Também aconteceu tragédia não anunciada que fez calar a mais importante voz do nosso jornalismo que, com coragem, imparcialidade e irreverência, conquistou a confiança de todos. Ricardo Boechat representou para os brasileiros o moço odiado pelos corruptos, amado pela sociedade que crer na luta incessante pela democracia. Com frases e expressões fortes, não temia ameaças e centenas de processos na justiça emanados pelo lado sujo da política contra suas denúncias e opiniões. Boechat fez grande diferença na imprensa brasileira. Diferente na comparação com blogueiros, comentaristas e colunistas comprometidos com os agrados e favores. Estava em São Paulo no dia do seu velório e não poderia me furtar de prestar minha homenagem, oferecer-lhe uma oração com mão pousada sobre o caixão, merecedor pelo desempenho do trabalho inestimável na imprensa a serviço ao Brasil. Fiz parte da grande audiência que o admirava e acompanhava todos os dias no rádio e na TV. Vi de perto a dor da família e as lágrimas copiosas de tantos renomados colegas. Ricardo Boechat, declaradamente ateu, personificou a mais recente manifestação do iluminado Papa Francisco: ?Melhor ser um ateu generoso do que viver na igreja com ódio no coração?..