Opinião
Lindo: um analfabeto politizado
Em 1972, por força da atividade de cronista esportivo no rádio, iniciava uma longa temporada de viagens. O avant-premiáre foi a Taça Independência, dois anos após o Brasil conquistar o memorável título de Tricampeão Mundial, no México. Salvador, Belo Horizonte e Rio de Janeiro marcaram meus primeiros voos em aviões começando pelo famoso Dart Herald da Sadia e sua rota interminável: De Maceió a Porto Alegre, eram pelo menos sete escalas. Não sei exatamente, mas entre uma e outra, a duração do voo não era menos que 12 horas. Ao apagar as luzes de bordo, desobrigando o uso do cinto de segurança e não fumar, começava a ?zona?. Entre uma turbulência e outra, o uísque com gelo esborrava nos copos, fumaça insuportável de cigarros impregnavam o ambiente. Quem não fumava era torturado pela poluição tóxica. A aeronave pequena não comportava mais que 48 a 56 passageiros. Esse preâmbulo é para dizer que apesar do temperamento meu introvertido, nas andanças pelo Brasil, do Amazonas ao Rio G. do Sul, sempre cultivei o hábito de conversar com pessoas simples. Ouvindo-as, aprendemos com a rica cultura de brasileiros de costumes e sentimentos distintos! Em São Paulo esta semana numa longa corrida de uma hora aproximadamente até a Vila Leopoldina, conheci seu Lindo. Apelido do Lindovaldo, um piauiense nascido na roça que não conseguiu concluir o primário, filho de pais que lhes deram mais 13 irmãos. O avô colocou no mundo apenas 20 filhos. Lindo agora é motorista de UBER. Trabalho duro, exaustivo para o sustento da família, em média 13 horas de labuta cotidiana. Nos seus 43 anos de idade, 27 são fincados na capital paulista com direito apenas a três idas ao Piauí para matar saudades dos parentes na terra natal. É feioso, raquítico, linguajar simples com cicatrizes de uma infância sofrida. Nossa interlocução foi longa durante a viagem comentando problemas do país; política, ideias e soluções. Votou em Lula em 2002 e admite que algumas coisas boas foram feitas. Entretanto, no seu entender, nenhuma nação se desenvolve dando migalhas aos pobres. É preciso criar condições para gerar empregos, oferecer escola em tempo integral com direito a alimentação. ?Os pais pobres não podem dar comida aos filhos?. Falou com sabedoria do descaso com a saúde. Da importância da reforma previdenciária e as injustiças das aposentadorias entre os privilégios do servidor público e o trabalhador comum. ?O privado com 30 milhões de aposentados representa um déficit de 150 bi. O serviço público com 980 mil beneficiários chega a 78 bi. Nunca mais votará no PT e cravou Bolsonaro por falta de opção. A democracia assegura direitos fundamentais para a sociedade e o povo ignora, vota em corruptos. Criticou setores da imprensa que acha comprometidos com ideologias e torcem pelo fracasso dos opostos. Do excesso de militares no atual governo e comparou com a ditadura que os mantinha apenas em posições estratégicas. Lindovaldo, matuto de nascimento, surpreendeu pelo entendimento dos problemas mais complexos do Brasil. Mais politizado que muitos parlamentares ou milhões de ?digitais addictions? omissos com a realidade. Ficaria mais tempo no carro do seu Lindo escutando uma aula de cidadania do nordestino do Piauí que mal conheceu as primeiras letras do alfabeto.