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sábado, 30/08/2025 | Ano | Nº 6044
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Quando a grandeza confunde

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O rompimento da barragem de rejeitos de minérios da empresa Vale, no município de Brumadinho, em Minas Gerais, já reacendeu diversas vertentes de conflitos e debates que irão ocupar a opinião pública durante muito tempo. Tempo mais longo ainda será requerido pelas ações judiciais e administrativas envolvidas naquilo que reputo como mais um assombroso descalabro nacional. Não fosse por outras razões fortes como é o caso óbvio das numerosas vítimas fatais, o fato exige uma adjetivação veemente porque nossa negligente percepção espacial ofusca algo que precisa ser urgentemente desnudado. Refiro-me ao golpe mortal sofrido pelo rio Paraopeba, um dos grandes afluentes do rio São Francisco, além de berçário de espécies de vida aquática de primeira grandeza. Devido ao gigantismo do território brasileiro e por algum mecanismo sutil do nosso inconsciente, quando algum crime ambiental, que normalmente para o conjunto de países do mundo inteiro seria considerado de grandes proporções, aqui no Brasil costuma parecer significativamente menor porque somos sempre traídos por essa confusão de escalas acerca da real proporção daquilo que ocorre em nosso imenso e generoso território. Tivesse acontecido no Uruguai, na Áustria ou na África do Sul, por exemplo, o mar de lama que a Vale despejou no Paraopeba e em seus córregos afluentes, ganharia dimensões de grave impacto nacional. Todavia, aqui entre nós, no Brasil, daqui a pouco tempo já será tratado apenas como notícia requentada e problema enganosamente absorvido pelo cotidiano de nossa convivência alienada com os erros e mazelas que se repetem e acumulam no contexto do ?jeitinho brasileiro? de enfrentar os seus desafios e a impunidade reinante. A morte do rio Paraopeba é um crime terrível. Para além das lágrimas e do sangue humano vertidos, as perdas patrimoniais das populações ribeirinhas e sobretudo os golpes irreversíveis desferidos contra a biodiversidade são inaceitáveis, sobretudo para um país que é signatário de diversas convenções internacionais que versam sobre a qualidade do ambiente terrestre. E essa gravidade extrema do que ocorreu com o rio Paraopeba ressalta ainda mais, já com contornos de absurdo total, o crime que tingiu com a mesma lama o Rio Doce, também em Minas Gerais, e os rejeitos químicos que emporcalharam e contaminaram a região de Barcarena, no Pará, levando-nos a nos perguntar se adentramos um tempo sombrio onde a cada ano o Brasil se dará ao luxo de detonar rios de importância planetária apenas porque temos o quinto território em extensão do mundo.

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