Opinião
Dois meninos, dois avós
Dois bons amigos meus alcançaram, no mês passado, a condição de avós. Moços ainda, ambos em pleno vigor físico e intelectual, estão agora novamente às voltas com fraldas, chupetas e mamadeiras, contemplando enternecidamente a segunda geração dos seus descendentes. Élcio Tenório está babando com o Bento, filho do seu primogênito, e Ricardo Mota apressou-se em pegar um avião para acolher nos braços o João Vicente, rebento da sua filha. O galeguinho sabido e educado que eu vi crescer agora é pai, e a menina bonita e meiga que eu ouvi cantar tão lindamente tornou-se mãe, nesse caminhar rápido da vida que nos surpreende. Élcio, com o seu jeito de durão, encheu os olhos d?água quando me falou do netinho; e Ricardo, naturalmente sensível, não pôde disfarçar a voz embargada quando tocou no assunto comigo. A um e a outro eu parabenizo, feliz com eles, por essa distinção que lhes foi dada pelos céus, superior a qualquer troféu ou título honorífico. São avós por merecimento, não por antiguidade, e Deus há de lhes permitir que aproveitem bem cada etapa desse vovozado, vendo os bebês de agora tornarem-se homens na acepção mais profunda da palavra. Há sempre um encantamento trazido por cada vida que chega ao mundo, uma como que afirmação da nossa perenidade, por mais que isso, racionalmente, nos pareça inalcançável. Ter nas mãos o filho de um nosso filho, ver materializar-se em outro ser a carne da nossa carne e o sangue do nosso sangue é, de certo modo, olharmos para nós mesmos fora do nosso corpo, revermos o que já se havia perdido dos nossos avós e dos nossos pais. Pode ser um sinal característico num lugar improvável, a cor dos olhos trazida de um bisavô, um jeito de cruzar as pernas ou de franzir a testa, a perna um pouco cangalha ou uma orelha cabeluda que mata a menina de raiva e de vergonha. Às vezes é uma maneira de estar em silêncio, uma forma de parar durante longos minutos para apreciar uma paisagem, um gosto mais apurado por determinado tempero ? coisinhas miúdas que nos dizem tanto, que nos trazem tantas lembranças boas, que nos afagam a alma. Dois meninos chegaram há pouco a esse mundo velho, e fizeram avós meus dois amigos. Virão poemas por causa deles, decerto virão canções, seguramente virão sorrisos serenos, gargalhadas sonoras, lágrimas de alegria e de gratidão. Um novo caminhar se inaugurou, para muita gente, graças à vinda de Bento e de João Vicente. Depois, como versejou Lêdo Ivo, ?depois virá a morte, e o lábio mudo/ levará em segredo as estações?. Nesse meio tempo, a felicidade trazida pelo nascimento desses dois cabrinhas perdurará em muitos corações.