Opinião
São calúnias, meu bem
A música ?Calúnias? ou ?Telma Eu Não Sou Gay?, imortalizada na interpretação de Ney Matogrosso, expõe a nu todo preconceito contra o homossexualismo no Brasil. A letra da música aponta que ?o que falam de mim são calúnias meu bem, eu parei...? É precisamente desta forma que a nossa sociedade moralista, conservadora e hipócrita concebe a questão da orientação sexual de um homem ou de uma mulher. A opção sexual deve ser entendida dentro do contexto do exercício da cidadania plena, visto que ela se dá no âmbito individual da personalidade. A intolerância é o pano de fundo de todas as injustiças e do desrespeito aos direitos civis e humanos. O nosso direito deveria terminar na intercessão em que começa o direito do próximo. Este deveria ser um marco natural e das leis, que regem a convivência em comunidade. A preferência opcional deveria ser uma fronteira ética, psicológica e legal intransponível para interferências indevidas e inapropriadas de terceiros. A descriminação se manifesta de várias formas no Brasil: machismo, misoginia, racismo e, sobretudo, a homofobia. Podemos observar que esta intransigência permeia até mesmo o insuspeito âmbito da religiosidade. A hostilidade as diferenças é um dos traços marcantes da identidade nacional brasileira, que caracteriza o nosso desenvolvimento cultural e que os psicanalistas, antropólogos e filósofos tanto buscam explicações. Recentemente fui a posse da diretoria da Articulação Brasileira de Gays - Artgay - AL, uma instituição que tem como objetivo prioritário a mobilização de homens gays, bissexuais e transgêneros, na defesa de seus interesses. Conclui que, mesmo que isso venha a ferir susceptibilidades morais de um segmento ortodoxo, este ativismo se dá rigorosamente dentro do âmbito da legalidade, dos princípios constitucionais e do uso do livre arbítrio dos direitos e deveres enquanto cidadãos. As alternativas baseadas na transformação de valores, com reflexos dos avanços dos conceitos doutrinários e sociais, foi o que deu legitimidade ao casamento igualitário, regulamentando a união estável entre pessoas de um mesmo gênero, ou do mesmo sexo. A pauta identitária está aí, é irreversível. Ela se consolida na expectativa das conquista mais amplas dos direitos civis e individuais. Conquistas que evoluíram muito, sobretudo dos anos 60 para cá, e particularmente do Maio de 68, onde as lutas e conquistas libertárias foram fundamentais para mudanças de convicções de toda uma geração, que rompeu com padrões de concepções e convenções estabelecidas até então. O musical Hair, dirigido pelo checo Milős Forman, retrata bem este período de fraturas das amarras ideológicas do conservadorismo, com a ascenção da contracultura e do movimento hippie, que pregava a ?paz e amor?. O sexo passa a ser visto como um ?urro? de liberdade. O mundo jamais voltaria ser o mesmo. A geração beat foi profética. Outro filme muito importante para se entender essas mudanças bruscas, em um período que a filosofia existencialista e feminista do casal Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir reescreviam a interpretação da natureza humana, é Milk- Um Grito de Liberdade, que teve a direção de Gus van Sant, contando a história do ativista Harvey Milk, em grande interpretação de Sean Penn, nos anos 70, que a partir de uma demanda pessoal, transformou-se no primeiro gay assumido a ser eleito para um cargo público na Califórnia e em um dos maiores defensores da luta pelos direitos civis nos Estado Unidos. Os homossexuais brasileiros têm uma grande contribuição à dar ao país, no qual a luta pelos seus direitos, será a luta pela democracia.