Opinião
Viagem à Itália - 1

Uma cria está na Universidade Paul Cézanne, e um pai não fica um ano sem a ver. ?A necessidade é a mãe de quase todas as coisas?, já dizia o Bispo de Hipona. Adquiridos meus apetrechos anti-frio, pensei: serei o caçula, porque numa excursão de dez dias vai ter idosos. Surpresa; três pessoas jovens: Patrícia, Giovana e Ana do Rio e São Paulo, a caçula e o pai pré-senil. Delas nunca partiu um reclame quando procurei nas vielas de Assis a tumba da namorada de São Francisco: Santa Clara. Elas tão jovens amam história como eu: ?em Paris, compre o museupass. Assim você entrará em todos.? Também Goethe esteve na Itália por dois anos (1786-1788) e escreveu um livro publicado trinta anos depois, debruçando-se nos registros quando já não significavam relato, mas experiência acabada. E escreve: ?As observações revelam seu caráter lacunar e se, para aquele que a realizou, a viagem parece passar feito um rio, surgindo em sua imaginação como um fluxo constante, sente-se então que um relato propriamente dito é impossível?. Imitar o gênio de Fausto não me exaspera. Sempre tive inveja de d. Lysette Lyra, que publicou o seu ?A Europa é assim? na década de 50. Outro viajante foi Rubens Villar. Li, tanto Goethe como dona Lysette e Rubens em cada crônica de viagem. Ele sempre gostou da marca cultural: a estação de trem onde desmaiou e morreu Tolstoi, a aventura da transiberiana. Márcia e Isaac são as terceiras pessoas que viajam tempo inteiro, mas não relatam as peripécias. E Robério e Claudia já estão no exótico, em tendas do deserto marroquino. Goethe passou por uma transformação na viagem, renasceu: ?o renascimento que me transforma de dentro para fora segue seu curso. Por certo, eu acreditava que fosse aprender de verdade aqui; mas não que precisaria desaprender, ou verdadeiramente reaprender tanto. Agora me entrego por completo a esse aprendizado, e quanto mais me vejo obrigado a negar a mim mesmo, tanto mais me alegro. Sou como um arquiteto, que desejando construir uma ponte, deu-lhe uma fundação ruim; a tempo apercebe-se disso e demole o quanto já erguera: busca então ampliar e aperfeiçoar seu projeto, dar-lhe alicerces mais seguros e compraz-se já, de antemão, da indubitável solidez da futura construção?. E Rilke, daqui saiu com o seu ?Diário de Florença?. Freud também foi a Roma buscar sua arqueologia de símbolos. Concordo com os gênios, na Itália tudo é belo! E como genialidade náo possuo, vou contar nas minhas crônicas as maravilhas vivas em minhas retinas.