Opinião
Violência e flexibilização de armas
Em sua obra ?Violência?, Slavoj Zizek enfoca e esmiuça, com profundidade, atos de violência coletiva e tragédias marcantes, como o massacre que vitimou 9 estudantes de uma escola pública de Suzano em São Paulo e mais alguns colaboradores, além de um tio de um dos assassinos que posteriormente se suicidaram. Barbárie rara no Brasil de tanta violência, embora horrorosamente corriqueira na democracia mais desenvolvida do mundo, os EUA, onde existe uma média de 10 episódios deste tipo cruel de violência coletiva por ano, o episódio de Suzano causou mais uma justa comoção nacional . Na contracapa de Violência, o filósofo e psicanalista esloveno, diretor internacional do Instituto de Humanidades da Universidade Birbeck, em Londres, não foge à polêmica das possíveis orígens da violência na sociedade moderna e lança uma pergunta primal: ?Será o desenvolvimento do capitalismo e da própria civilização enquanto tal uma causa para mais violência do que é capaz de prevenir?. O episódio de Suzano ocorreu poucos dias depois do aprisionamento dos prováveis assassinos da vereadora Mariele Franco, ambos ex-membros da PM do RJ, bárbaro assassinato ocorrido há um ano e cujo contexto factual germinativo, ainda bastante nebuloso, remete ? pela quantidade de armas apreendidas sob posse de um dos amigos dos suspeitos ? ao tráfico de armas pesadas no Rio de Janeiro, cidade tão maravilhosa, quanto infelizmente, violenta. Para tentar expor as razões da violência urbana ?muito justamente, ainda uma das maiores preocupações da população brasileira ? Zizek recorre entre outras fontes à Niezsche e Freud, quando compartilham a ideia de que justiça como igualdade se funda na inveja ? na inveja do Outro que tem o que não temos e que o goza. Assim, para o fundamentalista, seja de que tipo for, não basta ganhar, o outro tem que perder. Eles se sentem inferiores aos demais a tal ponto que são possuidos pela Pulsão de Morte, que implica, não só em eliminar os que inveja, como sacrificar até a própria vida. No Brasil atual, as razões para o aumento das preocupações com a disseminação da violência urbana são plenamente compreensíveis: quando o governo através de um decreto flexibiliza a sua liberação no seio da sociedade ? atendendo a uma belicosa promessa de campanha ? e delega a ela própria um postulado que seria essencialmente do Estado:a segurança pública, e ainda mais quando o próprio presidente relata que dorme no seguríssimo Palácio do Planalto, com uma arma em baixo do travesseiro, o governo reconhece o seu Culto às Armas. É portanto entendível, supor, que os 60% da população que são desfavoráveis à liberação de armas,advinda através do decreto que liberou a sua posse, esteja preocupadíssima com a possibilidade de aumento dessa violência em setores já violentíssimos, como o trânsito, onde as suas imensuráveis e cotidianas discórdias ,são atualmente resolvidas pela troca de palavrões e podem passar a ser solucionadas através da bala, pois nada impede que no Brasil refratário às leis, a Posse de Armas se transforme em Porte de Armas, e no trânsito brasileiro pouquíssimos são civilizados. O decreto de Posse de Armas, em si, já seria por demais preocupante para a brutal realidade nacional, repleta de desigualdades sociais e econômicas, se não fora agravada pela atitude hostil do governo com a imprensa tradicional, quando ela informa a sociedade dos seus repetidos equívocos e com todos aqueles que discordam de alguns de seus posicionamentos. Paralela e compensadoramente, o núcleo militar do governo é comparativamente com o núcleo ideológico ultradical, a fração mais democrática e menos violenta dos atuais ocupantes do Planalto. É ali onde está uma parcela importante dos adultos do governo, e certamente é uma referência segura de equilíbrio, bom senso e tentativa de uma tão almejada pacificação mínima dos brasileiros.