Opinião
As ideologias alopradas

Philip Roth, escritor judeu norte-americano, autor da monumental Pastoral Americana, obra que enfocava o envolvimento de seu país no conflito do Vietnã e foi adaptada para um filme que alcançou igualmente grande repercussão, afirmava: ?É impossível observar pessoas através de uma ideologia. A sua ideologia observa por você?. Eis que em terras tupiniquins, já por demais esfoladas por más gestões públicas e por ideologias destrambelhadas desenvolvidas por Dilma Rousseff, nos chega um guru que considera todo mundo que discorda de suas ideias paranoicas, um inimigo ou um ?comunista?. Tal qual os marxistas ortodoxos primitivos, que pretendiam mudar à força todas as pessoas que não aderiam aos seus princípios e visualizavam em todos eles um inimigo declarado, o ex-astrólogo Olavo de Carvalho, além de ser uma fonte permanente de intrigas e desestabilizações dentro do próprio governo, diagnostica todos aqueles que discordam de seus devaneios febris, como um ?comunista?, inimigo do País e do povo brasileiro. Sua metralhadora giratória não poupa ninguém: uma das suas vítimas repetidas é o vice-presidente da República,o moderado general Mourão, taxado pelo guru, antítese incontestável da filosofia ? um dia antes da viagem de Bolsonaro ao EUA ? de ?Idiota?. Os militares, principal e mais sólida base do governo, aí incluído o general Heleno, são vítimas constantes de suas difamações pelas redes sociais, onde lidera uma milícia digital, ávida por sua plataforma febril atormentada e distanciada dos problemas reais nacionais, como a reforma da Previdência. OC ?presenteou? o governo com os seus dois ministros mais ideológicos , incompetentes e polêmicos: Velez na Educação,atual reduto de conflitos intermináveis e onde a Educação não tem vez, e o chanceler Ernesto Araújo, figura desprestigiada e decorativa na viagem aos EUA. Pergunta-se: OC é amigo ou inimigo do governo? Depois da aventura lulopetista, que teve em Dilma uma ?presidenta? tão arrogante quanto despreparada --- a qual guiada por ideologia paleolítica --- nos legou a maior recessão de nossa história, precisamos urgentemente de pragmatismo, de determinação e foco em objetivos e metas tão reais quanto desafiadoras, como a reforma da Previdência. A perspectiva alvissareira de entrar para a OCDE, pode levar no mínimo dois anos, a OTAN, onde está a Argentina desde 1998 não muda o nosso destino, mas a reforma da Previdência ? sim; indispensavelmente associada ao que o ministro Guedes lucidamente desenhou em Washington: fronteiras abertas para o comércio internacional, com todos, seja a China, o nosso maior parceiro, seja os EUA ? e que esses possam ampliar as relações comerciais conosco e não se fique só na retórica. Bolsonaro retorna para o mudo real, onde a reforma da Previdência patina e exigirá demais seu envolvimento pessoal, além de sua mediação para evitar no nascedouro uma possível crise institucional entre Legislativo e Judiciário, o que impediria qualquer avanço das reformas.