Opinião
Flertando com a crise
Paralelamente à ausência do ministro Paulo Guedes na CNJ da Câmara Federal, uma multidão de sofridos e humilhados brasileiros desempregados ocupava o centro da São Paulo: mais um inquestionável motivo para ninguém se omitir dos problemas nacionais atuais. Guedes,um ministro competente e bem intencionado, caso fosse à CCJ, estaria ameaçado de sofrer gigantesco desgaste, principalmente pela presença dos sabotadores usuais e pela incompetência do governo em formar uma base parlamentar mínima de sustentação. A indispensável reforma da Previdência, tema difícil em qualquer lugar do mundo, por obrigar a trabalhar mais tempo e ganhar menos nas aposentadorias, precisará sempre da soma de esforços de todos os agentes públicos, do Executivo e do Legislativo. Bolsonaro, ao agredir e demonizar a política, generalizando a concepção de que todos praticam ?a velha política?, ou seja, a corrupção, cria ambiente hostil que já se manifestou rapidamente na aprovação das emendas impositivas pela Câmara e ameaça paralisar o governo. Bolsonaro age como se todas as suas vontades deveriam ser convertidas em lei, como se não precisasse negociar com o Congresso, o que não implica em má fé , corrupção , ou entregar o ouro aos ?bandidos?. O presidente mostra um arrogância e insensibilidade, que podem ser justamente o que muitos aloprados querem ?principalmente uma parte considerável de seus eleitores mais radicais?, manter o tom raivoso da campanha eleitoral, que lhe carreou muitos votos, mas que torna-se inviável para governar. As provocações e a incontinência verbal do capitão reiteram a impressão de que ele ainda não assumiu de fato a Presidência da República. Se tivesse assumido falaria como chefe de Estado ? que engloba o conjunto dos brasileiros e da administração pública ? e não como mero representante de seus eleitores, principalmente os mais radicais. A cada dia Bolsonaro veste o traje extravagante da ? Nova política?, todavia, continua a agir como deputado do ?baixo clero?,e sem entender a natureza da função para a qual foi escolhido pela maioria dos eleitores, o capitão drena as energias do País ao concentrar-se em temas de pouca relevância, mas com grande potencial de causar tumulto. Enquanto isso, o seu próprio partido, o PSL, imensamente desorganizado, e sem comando, duela, entre si, pelas redes sociais. Os exemplos recentes no País dos presidentes que quiseram governar acima das Instituições e sem apoio no Congresso foi o pior possível, caíram, com exceção óbvia da ditadura militar. Não defendemos nenhum acordo espúrio, não republicano, mas 13 partidos já se declararam favoráveis a reforma ? e se existem parlamentares querendo desviar ilicitamente recursos nessa peleja, preste-nos o favor, denunciando-os, presidente Bolsonaro! Generalizar, chamando-os a todos de corruptos, é o flerte com o desastre, é entrar em rota de colisão com um Congresso aparentemente coeso e disposto a usar a sua força institucional, é comprar uma briga institucional, cujas maiores vítimas serão aqueles que humilhados e sofridos ocupam as ruas de São Paulo e outras cidades por todo o Brasil. Presidente Bolsonaro, siga o bom conselho do Rodrigo Maia, deixe o tuíte de lado e começe a governar ? os 13 milhões desempregados lhe apelam!