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A paixão de jesus

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A paixão de Jesus nos embebe num caldo de símbolos. O mito da morte de Deus é trágico, já foi dito. Encenadas desde a antiguidade as versões do mito da humanização do divino e de seu sacrifício redentor continuaram vigentes(Sérgio Molina), porque bilhões de pessoas encontraram e continuam encontrando o Absoluto em ?Jesus: símbolo de Deus?(Roger Haigt, Paulinas, 2003).A Paixão vivenciada por um Deus com face humana reverbera-se esplêndida. Machado publicou a crônica ?A paixão de Jesus? na sexta feira santa de 1904, no Jornal do Comércio num primeiro de abril. O texto ficou submerso na miscelânea de suas obras completas, sem que a crítica literária vislumbrasse a epifania do texto. Como a Paixão de Jesus Cristo segundo São Mateus, onde Bach alcança o cume. Obra grandiosa em extensão e luminosidade, apresentada em onze de abril de 1727 na Igreja luterana Santo Tomás de Leipzig há 292 anos. Para sua execução são dois coros e um infantil, seis cantores solistas e duas orquestras abrangendo quase três horas até o desfecho. Já em Machado, apenas uma inteligência isenta e agnóstica, conseguiria encontrar esta dimensão textual na Paixão dum Deus feito homem. Machado começa: ?Quem relê neste dia os Evangelistas, por mais que traga no coração ou de memória, acha uma comoção nova na tragédia do Calvário. A tragédia é velha; desde a prisão de Jesus até a condenação judaica e a sanção romana; as horas daquele dia acabaram, mas a comoção fica sempre nova; por mais que os séculos se tenham acumulado. A narração basta. A entrada de Jesus em Jerusalém, escolhida para o drama da Paixão. A carreira estava acabada e os ensinamentos compediados na doutrina moral nova das bem-aventuranças do Sermão da Montanha: a humildade e a resignação, o perdão das injúrias, o amor dos inimigos, a prece pelo que calunia e persegue, a esmola às escondidas, a oração secreta. Nela está a promessa do benefício aos que padecem, a consolação aos que choram, a justiça aos que dela tiverem fome e sede.? Para o cronista, as bem aventuranças seriam a única resposta ao sofrimento humano. A noite não acabou sem que , pela traição de Iscariotes, Jesus fosse levado à casa de Anás e Caifás e, pela negação de Pedro, se visse abandonado dos amigos. Ele predissera os dois atos, que um pagou pelo suicídio e o outro pelas lágrimas do arrependimento.? Continua Machado: - A parte humana nasceu ainda, não naqueles que deviam amor a Jesus, se não nos que o perseguiam; Caifás e o Conselho acabaram pela condenação; para o crime político e para a pena de morte era preciso Pilatos. Que não encontrando delito em Jesus obedece ao clamor público e faz a única ressalva de lavar as mãos inocentes de tal sangue. Pilatos, diz Machado não finge sequer a convicção. A consciência brada contra o crime mas a fraqueza cede e entrega o acusado à morte.? Morte elevada ao trágico com os açoites, a coroa de espinhos, injúrias e o suplício de ficar entre dois ladrões. Na cena última, assinala Machado, ? as mulheres vieram rodear o instrumento do suplício. Com outro ânimo que faltou alguma vez aos homens, elas trouxeram a consolação e a paciência aos pés do crucificado. Nenhum egoísmo as conservou longe, nenhum tremor as fez estremecer de susto. Foi a última nota humana?. Dos homens, só um estava no Gólgota: João. Os demais tinham desaparecido sob o assombro do medo. ?Quando nada houvesse ou nenhuma fosse, a simples crise da Paixão era de sobra para dar uma comoção nova aos que leem neste dia os evangelistas?, recordando um drama antigo com a comoção mais elevada e mística: a esperança que brota das bem aventuranças no Sermão da Montanha, encerrou Machado.

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