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Venezuela: ameaça e exemplo

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O levante oposicionista que tomou as ruas de Caracas para derrubar o chavismo no dia 30 de abril e que até o fechamento desse artigo não tinha evoluído para um desfecho definitivo ? mesmo levando em conta a situação caótica da Venezuela, que vive uma esmagadora hiperinflação, teve uma queda do PIB de 18% somente em 2018 e tem previsão de queda de PIB de 25% para 2019 ? infelizmente faz parte de uma longa tradição de situações tragicamente bizarras no continente. Gabriel Garcia Marquez, ao receber o prêmio Nobel de Literatura, proferiu o célebre discurso ?A solidão da América Latina?, onde descreve a interminável sucessão de situações tão incríveis, abomináveis, quanto reais; algumas delas: o general Antônio Lopez Santana foi 3 vezes ditador do México, ele enterrou com um funeral magnífico, com todas as honrarias, a sua perna direita perdida na Guerra dos Pasteis. O general Gabriel Garcia Morena, que governou o Equador por 16 anos como monarca absoluto, ao morrer seu cadáver foi velado com uniforme presidencial de gala e sua couraça de condecorações sentado no trono presidencial --- e basta desses exemplos aloprados. Hugo Chavez, o fundador do bolivarianismo, mesmo morto, segundo o seu herdeiro Maduro, lhe aparece regularmente em forma de pássaro para o orientar e conduzir a Venezuela e a América Latina para a sua redenção social e econômica; dessa forma, Maduro continuou a obra chavista, cuja receita do bolo era e é o enfraquecimento das instituições democráticas, com a transferência do poder e da economia para as Forças Armadas, a Guarda Nacional Bolivariana e o armamento das milícias e dos coletivos, que lhes dedicam fidelidade canina. Isolar e perseguir a oposição e eleger a imprensa livre como inimiga do povo, demonizando-a e culpando-a por todos os problemas do país, fez parte desse pacote antidemocrático, que tem seguidores e admiradores na ultradireita do nosso continente. Enquanto faltava e falta tudo para o povo (alimentos, remédios e outros itens básicos), que, segundo as pesquisas ainda lhe dá entre 15 e 18% de aprovação, esse privilegiado grupo que lhe dá sustentação convive corruptamente com a bonança, pois controla a distribuição de tudo o que necessário para a sobrevivência humana. Todavia, o regime bolivariano de Maduro alega que exerce a democracia, pois seu governo teve eleições e tem um tribunal Supremo para mediar conflitos e manter a lei em funcionamento. A maioria da comunidade internacional, contudo, repudia e rejeita a ditadura venezuelana e cita entre outros motivos legais, o descumprimento do artigo 233 da Constituição venezuelana. Mas a macabra ditadura venezuelana consegue apoio de parceiros importantes, como a Rússia, Turquia, China e Cuba, cujos interesses comerciais e ideológicos, respectivamente, superam tudo. Uma solução diplomática para evitar o derramamento de sangue inocente, infelizmente, foi relegada, e o governo brasileiro, que, em outros momentos, exerceu exemplarmente esse papel relevante, civilizador e humanístico, fugiu a essa tradição. O desmonte da nefasta ditadura venezuelana e a restauração da democracia no país torna-se indispensável e impostergável: além dos reflexos imediatos nos preços do petróleo, o continente depara-se com perspectivas imensamente inquietadoras, com a possibilidade de uma recessão na Argentina e o retorno ao poder do nocivo populismo peronista. A Venezuela, todavia, deixa o exemplo concreto de que o enfraquecimento das instituições, a demonização e a deturpação do indispensável papel da imprensa livre e a perseguição das oposições, são terrivelmente deletérios para a democracia e devem ser repelidos vigorosamente.

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