Opinião
O verdadeiro mecanismo
O direitista cineasta José Padilha escreveu uma série para a Netflix, intitulada O Mecanismo, onde sujeria que o PT seria uma organização criminosa e Lula o chefe que a comandava. Talvez desconheça, no entanto, que, como dizia o grande brasileiro Leonel Brizola, ?a história não se corta com uma tesoura?. As denúncias que estão sendo apontadas pelo The Intercept, certificam esta frase do velho maragato gaúcho. No Rio de Janeiro era comum se dizer que Brizola tinha razão! Pelo que estamos constatando, a frase continua atual, mesmo após 15 anos da morte do velho caudilho do bem. As revelações trazidas a tona pelo jornalista Glenn Greenwald, revelam algo de extrema gravidade, que é a possivel existência de um esquema de ilicitude estar instalado no coração do poder judiciário brasileiro. As conversas do ex-juiz Sérgio Moro com o procurador Deltan Dallagnol e os procuradores da chamada ?força tarefa de Curitiba?, apontam para um esquema criminoso de fraudes e manipulações por parte de integrantes do ministério público e do poder judiciário brasileiro. O próprio moro, no entanto, costuma afirmar que o fundamental não é a forma como as denúncias foram conseguidas ou vazadas, e sim os crimes cometidos propriamente ditos. A megalomania e a certeza da impunidade dos membros da força tarefa, que ao que parece transformaram a Lava Jato em um partido político, foi o maior equívoco dos militantes procuradores do ministério público nacional, sobretudo da ?República de Curitiba?, qua agiram como verdadeiros ativistas na defesa de uma causa. Estas acusações sobre a lava jato, têm enorme potencial para se transformar, de longe, no maior escândalo da história republicana envolvendo o poder judiciário. Os envolvidos neste imbróglio farsesco denunciado pelo The Intercept, que, agora o sabemos, tinham claros objetivos eleitorais para obtenção de vantagens políticas e pessoais, provavelmente ainda continuarão impunes do ponto de vista legal, mas já estão completamente desmoralizados perante a nação e o mundo. A lava jato começa a desmoronar, se desmoralizando perante a sociedade brasileira e a comunidade internacional de países, afundando em um mar de lama criado por ela própria, num clássico feitiço que começa a se virar contra o feiticeiro. A impressão é que estamos apenas no início de uma história onde muito ainda terá a ser revelado. Muito mais virá por aí. Este episódio apontará em definitivo até onde, de fato, as instituições brasileiras estão funcionando, bem como se estamos vivendo sob os auspícios de um Estado democrático de direito ou sob um Estado de Exceção, nos moldes daquele descrito pelo filosofo italiano Giorgio Agamben. Pelo que estamos vendo, temos papeis invertidos entre heróis e vilões, na recente história nacional. O nosso povo, aos poucos, parece se aperceber do grave erro histórico que cometeu. Entrou, sem ter consciência disso, numa aventura ideológica com ares de tragédia civilizatória. O sentimento de ter sido ludibriado, entretanto, não tardará à opinião pública. Este episódio me lembra muito a história real exposta no drama Todos os Homens do Presidente, produção de 1976, dirigido por Alan J. Pakula, que conquistou 4 Oscar no ano de 1977, incluindo o de melhor roteiro adaptado, que foi baseado no livro escrito pelos repórteres do Washington Post, Carl Bernstein e Bob Woodward, que denunciaram o mundialmenre famoso Escândalo de Watergate, que culminou com a renúncia do presidente americano Richard Nixon. Certos tipos se homens, é melhor para qualquer presidente se livrar o mais rapidamente possível.