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Opinião

Um trem para a infância

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Deixei falar mais alto o menino que teima em morar em mim, e comprei pela internet uma nova edição do brinquedo que marcou a minha meninice: o Ferrorama, um trenzinho da Estrela movido a pilha. Não pensei duas vezes quando recebi a propaganda em meu email, e logo me apressei em imprimir o boleto e providenciar o pagamento, tudo isso sem dizer nada a ninguém, para que não me acusassem de estar tendo um ataque de infância tardia. Passados alguns dias de disfarçada ansiedade, eis que chego em casa e me deparo com a caixa à minha espera, como se fosse o invólucro contendo a paisagem rediviva de um passado feliz. O modelo é o mais simples, somente a maria-fumaça puxando dois vagões de carga, os trilhos em círculo sem subidas, túneis ou pontes, como havia nas versões mais elaboradas. Mas bastou isso para me levar de volta ao chão de cerâmica da nossa casa em Murici, onde eu me esparramava em meio aos bonecos comprados no carrinho de Dona Adélia, à porta do Ginásio Nossa Senhora das Graças, e os animais que minha mãe trazia para mim da loja A Brasileira, de Dona Lourdes do Carmo. Os seixos da beira do Mundaú tomavam a forma de montanhas, os palitos dos picolés Kibon viravam cercas e as caixas de fósforos vazias serviam de barricadas para os soldadinhos verdes de plástico, prontos para enfrentarem os ferozes índios coloridos do Forte Apache. Em meio ao cenário de guerra, vacas, cavalos e porcos conviviam pacificamente com girafas, hipopótamos, leões e rinocerontes, e eram todos transportados num caminhãozinho de lata de óleo com pneus de borracha de sandália japonesa, feito artesanalmente por Seu Venâncio, vigia da Escola Integrada Municipal. Para quebrar a frieza do piso, mamãe estendia nele uma esteira de piripiri adquirida na feira dominical, para mim mais mágica do que o tapete voador de Aladim. Eu passava horas e mais horas sentado no corredor ou na sala de jantar, esquecido do mundo lá fora, na companhia dos meus brinquedos favoritos. Zé Calôla, um lego articulado, foi por muito tempo o manda-chuva do pedaço; depois perdeu esse posto para o Falcon, um valente aventureiro que era namorado da boneca Susie da minha irmã. Terminada a brincadeira, eu guardava cuidadosamente todos eles numa grande caixa de papelão, onde repousavam até a próxima sessão. Hoje o meu novo Ferrorama está no meu gabinete de trabalho, entre pastas de documentos e livros de direito. Mas toda vez que ele for ligado, vai me levar de volta ao cenário que jamais se apartou das minhas melhores lembranças.

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