Opinião
Sintoma da cidadania
Ao convocar a imprensa para falar sobre criminalidade, Renan Filho recebeu como insulto uma simples pergunta. O repórter buscava explicações do governador sobre a estranha deterioração das edificações dos Centros Integrados de Segurança Pública, que apresentam graves problemas estruturais após tão pouco tempo de edificados. As obras dos CISPs custaram até R$ 8 milhões e estão sob suspeição, inclusive a de Murici, terra do governador. Diante da inquirição, Sua Excelência resolveu ofender o profissional de imprensa, como se não devesse explicações acerca do correto emprego dos recursos advindos do bolso do contribuinte. Diferentemente do Instagram governamental, a vida real mostra um cenário duro para os alagoanos. E a dureza da realidade chegou na manhã do dia seguinte ao ataque do governador, que não se retratou do gesto feio e diminuto que cometeu. Um dos destaques da semana na imprensa nacional, o Atlas da Violência 2019, organizado anualmente pelo IPEA e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, expõe dados gravíssimos sobre homicídios, inclusive mostrando Alagoas entre os entes federados mais violentos do Brasil. E mais: o Atlas situa o Estado no lamentável ranking dos cinco com maiores taxas de homicídios de negros do País, o que levou aos organizadores do documento a qualificarem como ?estarrecedor? o fato de a terra de Zumbi dos Palmares ser considerada ?um dos locais mais perigosos para indivíduos negros?. A escalada de assassinatos, pelas conclusões do Atlas, também atinge a mulher alagoana, posicionando o Estado num lamentável quadro nacional. Na era Renan Filho, as delegacias especializadas em protegê-las contra a violência continuam sem funcionar nos finais de semana e feriados. Portanto, não adianta maquiar a realidade nem tentar ofuscar a verdade, porque a sociedade exige respostas, razão pela qual as perguntam continuarão a ser feitas, pois o jornalismo age como sintoma da cidadania.