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Opinião

Carta a meu pai

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Beleza, pai? Tudo certo por aí? Demorei um pouco a lhe escrever esta carta porque estava meio desnorteado. Aquela sua viagem há 17 anos não me convenceu (nem a mim, nem à nossa família). Num momento o senhor estava conosco; noutro, viaja. Desaparece. Some. Ausenta-se. Logo o senhor, que sempre fez questão de se manter presente na nossa vida, aconselhando-nos ou tranquilizando-nos durante os períodos mais difíceis. De repente, “evapora”, deixando-nos sozinhos; ficamos sem entender o que estava acontecendo.

Fico impressionado como, depois de tantos anos, as pessoas ainda se emocionam com o fato de tê-lo conhecido. Conversava sobre isso com minha tia Audenir. O carinho com que falam do senhor continua vivo – e muito vivo! Há poucos meses fui à escolinha do seu neto João para pegá-lo. Enquanto eu o esperava, aproximou-se de mim um senhorzinho que logo me perguntou: “Jovem, você é o que do ‘seu’ Agamenon?” Depois que eu me identifiquei, ele abriu um sorriso e não parou de elogiá-lo, pai, reafirmando sua vontade de ajudar o próximo, de como se interessava pelos problemas dos outros e fazia de tudo para amenizar a dor ou o sofrimento de quem quer que fosse – sem nunca pedir nada em troca. Fiquei emocionando. Ainda fico. Devo lhe confessar que – de todos os momentos de que tenho saudade – os nossos bate-papos diários bem cedinho no trabalho são um alento para minha mente e meu espírito. Curtia muito aquelas ocasiões. Trocávamos ideias sobre vários assuntos: profissão, futuro, família, livros... Lembra? Eu nunca me esqueci. Também nunca me esqueci daquele dia em que o senhor, conversando comigo, me disse que deveríamos traçar planos educacionais mais rigorosos para os alunos, porque o nosso compromisso era “transformar a vida não só dos estudantes, mas também de toda a família do educando”. Deixe-me dizer uma coisa, pai: conseguimos. Nós transformamos muitas vidas, salvamos muitos jovens do mau caminho, nós recuperamos muitos meninos que – não fosse sua dedicação – teriam se perdido na vida. Aliás, os alunos com quem o senhor convivia fazem questão de mencioná-lo como alguém que deu significado à vida deles. Relembram histórias fantásticas com o senhor, das quais só fiquei sabendo pelos próprios alunos. A discrição era um charme a mais do senhor. Dias atrás, estava ouvindo o menestrel Oswaldo Montenegro e me lembrei duma conversa nossa lá no colégio. Eu começava a dar aula, ainda verde, e não encontrava a atitude certa para impressionar os alunos em sala de aula. Perguntei ao senhor como me portar com grandeza no ofício de instruir. O senhor deu aquela conhecida risadinha e, olhando para mim, disse que o bom professor deveria ter “olho de bicho, mas com um coração de mulher”. O senhor usou os versos da música “O Condor”, de Oswaldo Montenegro. Demais, mesmo: a canção e o conselho. Nunca mencionei, mas achei o conselho genial, com tom metafórico perfeito, cheio de sabedoria. Ao professor cabe desenvolver a “autoridade” junto com o verdadeiro “amor”. Com a gratidão de todos que o amam, fica aqui nosso obrigado pelas grandes lições de vida.

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